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TRINTA E UM DIAS – Parte 2 (Alice) – 13º dia

13º dia - Parte II - Alice

Décimo terceiro dia – Conto

Acompanhei Lóra na visita ao grupo de apoio. Ela era elegante e linda, uma joia da família e minha prima mais velha. Sempre esteve comigo desde que me entendo por gente, temos uma cumplicidade que vai desde as mãos dela no meu carrinho, quando era menor, até ela sentada no sofá, segurando-me para a foto de família. Queria que não tivéssemos nos distanciado pelo tempo, queria que ela estivesse aberta e feliz como sempre, mas as coisas não correm como a gente quer e, por vezes, alguns afastamentos, mesmo que forçados, acabam por perdurar e deixar seus próprios marcos.

Um dia, no parque de diversões, ela me contou que estava namorando e eu fiquei muito feliz. Já faz alguns anos e, naquela época, lembro que ela enfrentou uma avalanche de críticas da família, pessoas que a criaram e que, por isso, achavam que detinham o direito de ditar e limitar sua felicidade. Mesmo sendo parte da família, mesmo partilhando o mesmo sangue, ela não hesitou em me contar cada detalhe do seu relacionamento, das suas inseguranças e dos seus medos. Foi no dia do parque, em meio às luzes e os carrosséis, que admirei sua coragem, que senti orgulho por ela e pela sua própria felicidade e que entendi sobre as lutas que travamos, sobre preconceitos que enfrentamos e sobre como devemos sobreviver neste mundo, porque ao ver os pais de Lóra contra ela, meus tios, senti que deve ser muito doloroso não ser aceito por quem você ama ou não ser aceito por causa de quem você ama!

Há um ano, Lóra terminou o namoro. Suas tentativas de entrar na faculdade foram frustradas porque seus pais tinham expectativas exacerbadas. Nada estava à altura da filha perfeita deles. Ela entrou para artes, licenciatura, na faculdade federal da cidade e não pôde cursar, porque os pais não deixaram, afinal “ninguém sobrevive de arte” e porque eles criaram a filha para ser algo grande, mesmo que ser algo grande não fosse o que ela realmente quisesse.

Na metade do ano, Dayana, a ex namorada de Lóra, cometeu suicídio e ninguém sabe o motivo, ou melhor, eles preferem não ver o verdadeiro motivo. Isso destruiu minha prima. Pouco tempo depois ela foi recusada na vaga para Direito que seu pai tanto sonhava e depois tentou medicina que era o que sua mãe ambicionava, falhou de novo.

Os tios, primos, colaterais apontaram o dedo, disseram que ela tinha tudo para se sair bem e, mesmo assim, não o fez. Seu pai achava que era birra, sua mãe achava que era falta de empenho e a morte da Dayana foi tratada com completo desdenho. Seis meses depois e ninguém mais lembrava, ninguém tocava no assunto, ninguém perguntava.

Então minha tia decidiu que estava na hora de Lóra arrumar um namorado, porque essa coisa de “gostar de meninas” foi apenas um devaneio do passado. Levou Lóra em algumas festas, ensinou ela a beber uísque e fazer o quisesse porque ela “precisava extravasar” todo aquele estresse. Apresentou-lhe o Guilherme, filho da sua amiga que fazia a unha no mesmo salão que ela todas as quintas.

Guilherme era um homem de verdade, já estava terminando a faculdade e tinha um emprego a vista, era querido por todos. Meu tio gostou dele e logo lá estavam os dois: Lóra e Guilherme. Finalmente ela se endireitou!

Acontece que o príncipe não tinha nada de encantado: levou a Lóra para afogar as mágoas do outro lado; não eram mais uísque e nem festas, eram drogas e suas possíveis frestas contra a realidade. Guilherme fumava, cheirava e bebia e minha prima apenas o seguia, porque todos diziam como ele era um máximo e que ela deveria valorizar o namorado. Sexta à noite ela me ligou chorando, eram três da manhã. Guilherme havia batido nela, motivado por ciúmes infundados. Convenci ela a deixá-lo de lado, dar adeus àquele relacionamento frustrado, mas Kátia, minha tia, convenceu ela de que aquilo aconteceu apenas aquele dia e que ele era um bom rapaz, que ela deveria ficar com ele, que não acharia ninguém melhor que ele, que ela deveria relevar aquele momento de estresse repentino, erros acontecem.

Lóra começou a beber mais uísque, afinal era sempre o mesmo estresse. Guilherme estava exigente, mandão, arrogante e violento, porém o uísque foi ficando fraco e Guilherme tinha um amigo envolvido no tráfico que conseguia constantemente entorpecentes, Lóra pediu o contato do amigo e Guilherme explodiu de raiva:

— ESTÁ BRINCANDO COMIGO? —

¾ ele gritou.

— Por favor, amor… Preciso!

— PRECISA DO QUÊ? QUER DAR PARA O MEU AMIGO?

Depois dessa frase, de Lóra não se ouviu mais nada, só seus gritos. Acontece que todos sempre diziam a dádiva que era Guilherme e como Lóra precisava dele e ela começou a acreditar nisso também, que sem ele não seria nada e não renderia nenhum vintém… Guilherme era bom com aparências, educado e cortês, escondia as evidências. Ninguém desconfiava da sua podre essência, ninguém sentia aquele ar de prisão embutido naquela relação. Talvez minha tia percebesse alguma coisa, seja pelos hematomas ou pelas manchas roxas que sua filha constantemente apresentava, porém ela sempre ignorava porque tinha medo, medo de que Lóra voltasse a “querer algo com alguma mulher por aí”.

Em um dia comum ela me ligou, chorando, Guilherme havia traído e ela sabia disso, achei que finalmente seria sua liberdade daquela relação doente, mas então seu pai disse que ele o fez porque ela não era “mulher suficiente”. “Homem tem suas necessidades, caso a mulher não forneça o que ele precisa, ele vai buscar nas ruas da cidade”.

“Lóra havia parado de cuidar do corpo”.

“Talvez seja porque ela engordou um pouco”.

Essas foram as falas da família, dos pais, tios, do povo que não sabia que palavras são como papéis, parecem inofensivas, porém, ao menor descuido, podem se tornar cruéis e cortar o dedo, marcar a vida, cultivar o medo e impedir a despedida.

Lóra entrou em uma dieta maluca a base de pílulas e álcool, um para o corpo e o outro para a mente. Perdeu 36 quilos e ficou doente. Alguns diziam depressão; outros usavam a ansiedade como exclamação, mas ninguém pensou que a pressão psicológica, o namorado agressivo, a família com os preconceitos escarnecidos fossem a explicação.

Depois de um tempo quase literalmente morrendo, ela foi deixada pelo Guilherme. Sim, ele a deixou e alguns ousaram dizer que foi porque ela não se dedicou, deixou-se abater por “coisinhas” de nada.

Hoje estou com ela, franzina, Lorraine, Lóra a joia da família, elegante e linda, de frente à porta de entrada do grupo de apoio a dependentes químicos, sua mão em pele e osso segura a minha, está gelada, suas unhas grandes fincam minha pele e ela me olha e pergunta:

— Você vai estar aqui quando eu sair?

— Sim! Vou ficar aqui fora o tempo todo.

Ela parece fora da realidade, seus olhos encaram a porta, mas não a enxergam, então ela pergunta:

— Como seria se tivessem aceitado a Day?

— Eu não sei…

— Eu também não.

— Você não vai entrar?

Ela apertou mais forte minha mão, seus lábios estavam brancos, ela os cerrava com força. Escorreram duas lágrimas pelos seus olhos, ela suspirou fundo. Olhei-a e dei-lhe um abraço apertado, senti um cheiro de cigarro e de bebida amanhecida, sussurrei:

— Quer que eu entre com você?

Ela enterrou o rosto no meu cabelo, bochechas frias como o gelo, pareciam literalmente uma parede de concreto gelada rente à minha face. Ela sorriu e foi embora, soltou minha mão, desfez o abraço e seguiu em frente.

“Opiniões. Você as fala como se não fossem nada, você crítica um jeito, uma conduta, um corpo, um rosto ou uma roupa, você acha que contribui, você acha que só fez “um comentário ingênuo”.

Só que você não sabe o que toda aquela reprovação, preconceito, todo o âmago embargado em suas palavras, extirpados em opiniões, você nunca sabe como será recebido pelo outro lado. Às vezes suas opiniões não causam nenhum furo, nem um abalo, porém por vezes elas fazem um grande buraco um grande estrago na vida de um outro alguém,

então pense bem em quem será. Essa história meramente fictícia pode servir muito bem para a sua vida e, neste momento, você deve estar atento para não ter o descaso de Kátia, a implacabilidade do pai, por não ser influenciado como Lóra e, acima de tudo, não ser, em hipótese nenhuma, o Guilherme. Entretanto atente-se, porque a maioria das pessoas são a prima, amam, são passivas, vêem a confusão de longa vista sabem o quanto é errado e, mesmo assim, não tentam mudar aquele estado. Cuidado! Ser passivo, não ser intrometido, são coisas que dependem muito do período. Não seja apenas mais um espectador do desastre, que torce para que tudo fique bem, mas não age. Opiniões machucam, pessoas ferem e a inércia, bom, ela é pior ainda porque deixa tudo como está, ainda que esteja ruim.

Autor do conto: Bernardo Duarte

Quando terminei a leitura de um trecho de conto naquela manhã fiquei extasiada e um pouco preocupada, não tinha a intenção de olhar os contos desclassificados para aquela competição, mas esse em particular chamou minha atenção, senti nas palavras a comoção do autor, a vontade de tocar o seu leitor, senti que ele foi falho e que quis alcançar temas variados em um único enredo e, ao mesmo tempo, entendi, percebi que a mensagem era importante, mesmo que fosse assim desconectada do restante.

Reli várias e várias vezes, busquei as intenções do autor e fiz as minhas. Entendi que eu seria a prima, entendi que a sociedade ignora a essência por aparências, entendi que o amor e o zelo podem prejudicar e que o preconceito destrói muros bem construídos, machuca pessoas. Entendi que a vida é, em sua maioria, formada por regras, mas ninguém disse que elas eram realmente certas. Obrigada autor do conto desclassificado, obrigada por ter escrito para além da vontade de ganhar, obrigada por ter passado uma mensagem, obrigada por ter me tocado.

Obrigada!

Alice Brandão.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso “cuenta me un cuento” de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: “o testemunho de Delphin”. Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: ” Por de trás da pálpebras”, no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.

Revisão: Tati Iegoroff

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