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TRINTA E UM DIAS – Parte 2 (Alice) – 12º dia

12º dia - Parte II - Alice

Décimo segundo dia – Tem dias em que até sonâmbulos acordam

Valor é uma coisa engraçada. Você por muitas vezes não percebe que o tem, não fica a todo momento narcisando suas qualidades e quantificando suas emoções, entretanto uma hora ou outra, de um momento qualquer, alguém, por uma ação ou até mesmo uma omissão, vai te fazer lembrar que você tem um valor e talvez essa pessoa te valorize mesmo, te faça enxergar o brilho reluzente que você tem, mas, infelizmente, na maioria das vezes, com a maioria das pessoas, o valor se mostra de um outro jeito, ele se mostra na perda, no vexame, na falta e na completa dependência. Sim, tem uma segunda pessoa nessa história e ela vai te fazer reconhecer seu valor, só que, não vai ser de um jeito bom, não vai ser com sorrisos e não terá brilho…

Você vai acordar às cinco da manhã, olhar para o teto e perceber que tem uma pessoa do seu lado, uma pessoa que ofusca quem você é, uma pessoa que apenas destrói tudo de bom que você constrói e aí você vai percebendo que o problema não era você, que os defeitos e o valor ínfimo foi algo que te fizeram acreditar, fizeram você acreditar que era um produto de liquidação e que teria “sorte” se um alguém visse pelo menos um vislumbre de benefícios em sua pessoa. Mas aí você acorda e percebe que não é e nunca foi uma liquidação, apenas… Você apenas se perdeu por um momento, por alguns meses, por alguns anos, seja dentro de uma amizade ou relacionamento, você apenas ficou perdido, esqueceu que precisava, além de ser amado, ser também reconhecido e valorizado.

Foi isso que pensei quando peguei uma discussão de meus pais. Minha mãe finalmente havia acordado e meu pai? Bom, ele queria que ela continuasse dormindo, mesmo que fosse pela própria força.

Fiquei parada no corredor, com a mão em punho segurando o cordão que havia ganhado daqueles dois estranhos que agora discutiam. Segurei aquele cordão, um cordão simples, com um pingente elementar. Era um floco de neve dourado e pequenino, mas bem firme e maciço. Segurei-o como se fosse minha âncora e ouvi cada palavra do que ali se passava:

— Eu me cansei, Olavo! Me cansei de manter todas essas aparências, não quero mais continuar ao lado de um homem que nem ao menos sabe o que é uma família, nossa filha, ela… Ela nos olha como completos estranhos!

— Talvez, se estivesse ficado em casa, mantendo e cuidando da família, ao invés de… de…

— Do que? Viver meus sonhos? Queria que eu cuidasse passivamente da casa, que fosse a gerente do lar, enquanto você poderia trabalhar e desfrutar a vida que queria?

— Você é que é a mãe!

— Desde quando ser mãe é limitador? Você é pai, eu sou mãe e isso não nos torna diferentes e muito menos desiguais!

— Alice precisa da mãe, ela é mulher, precisava ter você por perto!

— Além de mãe ela tem um pai também, a responsabilidade é igual! Negligenciamos isso, mas não vou admitir que coloque a culpa em cima de mim! Não agora… não mais…

— JÁ CHEGA, MIRANDA! Onde pretende chegar com tudo isso? Quer o divórcio? Logo você, que precisa de mim. Eu te coloquei onde está hoje, eu te dei tudo, dei uma família e a possibilidade de crescer profissionalmente e você quer jogar tudo fora?

— VOCÊ NÃO ME DEU NADA, OLAVO! Tudo que conquistei foi pelo meu esforço próprio e se quer saber, não existe isso de jogar tudo fora, não me venha com esse argumento barato, você sabe muito bem… EU TENTEI e tentei bem mais que você.

Silêncio. Não sabia como se iniciara a discussão e também não sabia qual era o motivo que culminou naquele alvoroço de palavras, mas senti, por um momento eu senti que ela buscava a liberdade. Como os pássaros, ela havia se cansado também… Então Olavo armou os argumentos e também partiu batalha adentro:

— Você sempre teve a vida fácil, Miranda! Sempre esteve na minha sombra. Concedi tudo que precisou e ainda quer dizer que chegou onde está sozinha? Não me venha com essa! Em vez de discutir comigo, deveria me agradecer. Você mesmo sendo essa mulher doente, cheia de remédios e calmantes ainda me tem como marido, eu sim, tenho zelo por essa família, porque se não tivesse já teria te abandonado há muito tempo!

Ouvi o barulho da caixinha de comprimidos de Miranda. Novamente segue-se o silêncio. Queria muito ver o que estava acontecendo, senti como se aquela parede fosse um grande muro, enorme, e que caso me inclinasse um pouco mais para vê-lo, ficaria perdida e sem equilíbrio. No entanto, quando aceitam-se certas verdades, a queda é inevitável então, corajosamente e apertando aquele pingente, precipitei-me pela fresta da porta e presenciei a cena, na qual um pássaro, todo machucado pelas correntes de um relacionamento abusivo, debatia as asas freneticamente tentando soltar-se e, apesar de sentir dor, das correntes machucarem, ele continuava. Miranda estava ali, segurando com força a caixinha de remédios. Lágrimas rolavam pelo seu rosto e ela reprimiu um soluço e Olavo… Ele a olhava com os olhos ardentes de um dono que predava o próprio bem. Ela engoliu em seco, fitou o tapete persa no chão e deixou por ali algumas lágrimas caírem e algumas palavras também:

¾ — Eu me escondi por um tempo… Na sombra obscura de um alguém, na sua sombra, Olavo! Eu acabei acreditando que estava escondida e que não era refém… Sentia o impulso de fugir, às vezes, mas tinha a dependência e você sempre foi o criminoso perfeito que pedia, com olhos lamuriosos, minha clemência. Fiquei confusa com o tempo, achei que o problema era apenas meu, achei que o motivo era apenas eu e fui me perdendo no que você queria, no que dizia sobre o que eu devia e não devia. Alguns que viam de fora, gritavam e diziam que eu tinha que fazer algo, tomar uma atitude, sair desse caos, eles diziam que amor não prende, não veta, não amarra, não sufoca, que amor de verdade é sentimento, é calor, é proteção e aconchego…

Vi Miranda levantar os olhos embargados e vermelhos, encarar Olavo com o pouco de força que ainda restava e continuar dizendo, tudo aquilo que deveria ter dito, há muito tempo:

— E então nós tivemos uma filha linda e, por um tempo, achei que deveria suportar todo esse seu egoísmo pelo bem da nossa família, mas eu não consegui! Você tem razão, não fui uma boa mãe e talvez nossa Alice tenha como mãe a governanta. No entanto, Olavo, isso não vai ser somente culpa minha, você fracassou também, se ausentou do seu papel de pai, delegou tudo em cima de mim… E por quê? Por que eu sou mulher? Sou mãe? O que isso te impede de desempenhar o seu papel de pai!? SÃO TÍTULOS DIFERENTES, OLAVO…

— Aaaah, Miranda, você não ouse-

— CALA A BOCA!

Ela gritou, sua voz ecoou pela casa, meu coração seguiu o ritmo em disparada. Então ela prosseguiu, despejando em alguns segundos anos de fala contida:

¾ — E se eu tenho sucesso profissional, se corri atrás da minha carreira, isso nunca vai me tornar menos mãe, mas eu quero que você saiba: todo respeito, Olavo, tudo que conquistei foi com os meus próprios passos… Não venha atribuir ou vincular meu sucesso a você, porque você não está mais em tempos remotos, onde o homem sobrepunha a mulher! Estamos de igual para igual, Olavo, suas palavras, o jeito que me ataca, isso só mostra o medo que sente, seu ego, sua masculinidade frágil que precisou me oprimir todos esses anos para se sentir mais HOMEM! Escuta aqui, olha bem nos meus olhos, quero que saiba que errei com nossa filha, mas errei por deixar ela me ver nessa posição, nesse casamento fracassado, errei por não ter coragem de acabar com tudo isso, errei porque me ausentei, fiquei longe, porque não queria ver a sua cara, topar com seu ego. Não vou mais sorrir em silêncio, não vou ser conivente com essa sua postura ditadora… Vou ser um exemplo para a nossa filha, vou mostrar para ela que ninguém precisa ficar ao lado de alguém que precisa diminuir para se sentir exaltado! E fale o que quiser, pelo menos eu vou fazer de tudo para mudar, melhorar como mãe e como mulher e a partir do momento em que sair por aquela porta, grave bem minhas costas, porque vai ser aí que vai ficar… O seu medo de ser deixado para trás se fará presente, porque vou te deixar aí, bem onde deveria ter deixado há muitos anos…

Ouvi passos e saí ligeiramente. Tive tempo de ouvir a batida da porta do rol da frente. Incluí coragem para ir mais uma vez espionar aquela situação, então vi Olavo, parado com o copo de uísque, olhar atônito, boca entreaberta e senti uma imensurável vontade de dar risada, porque aquela cena retratava exatamente a exasperação do predador que subestimou sua presa.

O valor sempre vai ser uma coisa engraçada, porque do mesmo jeito que alguém pode te fazer enxergar o seu, uma outra pessoa pode mostrar que seu valor não passou de algo imaginário, algumas pessoas mostram um potencial escondido, mas outras revelam que você não tem mais nada, que tudo já fora perdido.

“Pergunto-me qual dos dois Miranda foi para Olavo. Algo me fez pensar que com o bater daquela porta ela saiu convencida do que realmente merecia e ele ficou estupefato por perceber que continha consigo um raro artefato, que todos os anos ao lado daquela mulher, foram muito mais do que ele merecia como homem… Às vezes o valor próprio é superestimado”.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso “cuenta me un cuento” de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: “o testemunho de Delphin”. Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: ” Por de trás da pálpebras”, no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.

Revisão: Tati Iegoroff

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