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TRINTA E UM DIAS – Parte 2 (Alice) – 11º dia

Parte II — ALICE — 11º dia

Décimo primeiro dia – Sobre Wendy

Às vezes eu sinto falta… falta das pessoas que passaram por minha vida e escaparam dentre meus dedos, assim como quando tentei pegar um punhado de água para lavar o rosto naquela manhã. Encarei o espelho e pensei: “Por que será que, no fim das contas, acabo sendo especialista em ser deixada para trás? Apagada, esmaecida da memória de algumas pessoas, pessoas essas que jazem como um marco perpétuo em minha mente… São como personagens que eu mesma criei, são mais presentes nas lembranças do que em própria companhia”.

Lembrei-me que hoje era um dia especial. Finalmente, depois de muito tempo, seria capaz de encontrar uma velha amiga e, por mais que tivéssemos passado anos separadas, ainda assim, nem mesmo o tempo nos distanciava. Acho que a vida é assim: “algumas pessoas simplesmente vão ficar, no entanto, outras apenas vão sentar-se ao seu lado, contar boas histórias no caminho e, quando chegar a hora do desembarque no trem da vida, elas simplesmente vão embora. Você sente saudade da companhia e sente saudade da história, mas como uma coisa de passagem, tudo apenas fica na memória”.

Wendy era uma artista em todos os aspectos possíveis: era dedicada e altruísta, tocava piano e ao mesmo tempo desenhava, ela tinha um jeito diferente, inclinado a dizer que as aspirações da vida eram todas calcadas no amor.

Lembro-me de uma vez, muito tempo atrás, quando a vi tocando piano na sala, estava estonteante, como sempre, e eu a admirava de um modo quase que reluzente. Ao mesmo tempo que via o portfólio com seus desenhos, ela tocava como vento. Se pudesse descrever o piano da Wendy, diria que ele era como o vento às cinco da tarde, aquele sol morno despedindo-se e a brisa tocando seu rosto e balançando graciosamente seus cabelos. Você quase não vê o movimento, mas sente exatamente cada fio se elevar com a corrente de ar e então seus braços se eriçam, seu pescoço sente o frescor e você olha para o céu e vê as nuvens andando. Era assim que o piano dela soava para mim.

Wendy era intelectual, com cabelos pretos e lisos cortados de forma chanel, alguns centímetros abaixo do queixo. Ela usava óculos, uma armação sofisticada e, ao mesmo tempo, simples. Algo com um ar rústico e um toque meigo. Era uma armação verde escura, nas hastes haviam detalhes intrigantes, como se o longo ornamento do óculos se afunilasse de forma a traçar, bem perto da lente, um fino pincel que, derradeiramente, desembocava na continuidade das “pernas” de seu óculos e pode parecer estranho, mas esse detalhe peculiar era a cara dela!

Tenho mais coisas para lembrar sobre Wendy, como o sorriso dela e seu olhar prudente, sempre analisando a melhor forma de se portar conforme a ocasião. Ela era tímida até se falar em arte, pois aí desembocava a mostrar cada um de seus traços. Tinha no amor por tudo a sua mais verdadeira forma de artista.

Hoje, depois de um longo, longo tempo, iria encontrá-la e não sentia-me ansiosa ou angustiada, sabia que iria encontrá-la exatamente como antes. Talvez fisicamente diferente, mas ainda seria a minha Wendy interiormente. Fazia três anos desde a última vez que a vira. Ela estava com a mãe, prestes a se casar, e as coisas, na família dela, andavam aos trancos e solavancos assim como na minha.

Agora:

Estava na mesma sala de música, exatamente no mesmo canto reservado, a minha presença expectante, e a via ali, sentada em postura ereta, deixando os dedos tocarem levemente as teclas. Minha amiga Wendy era a minha definição de segurança porque eu sei que, com ela, pouco importava essa coisa de tempo. Os problemas e tudo que nos transformou não passavam de meras notícias novas, assuntos para se conversar caso quisesse ou não, mas eu sabia que ela sempre teria meus ouvidos e eu sempre teria suas melodias.

Wendy guardava sob o piano pequenas miniaturas, quase como aqueles bibelôs que se encontram nas casas das avós. Ela tinha um anjinho e ele foi o primeiro da coleção. Lembro-me de olhar para ele quando éramos pequenas e ela contava a história de como aquele pequeno objeto era um bom guardião. Hoje penso que ela gostava de suprir sua solidão com aquilo. E agora eu estava ali, encarando mais de cem peças que figuravam o modo que ela encontrou em driblar a solidão. O piano parou e ela levou a mão até o pequeno anjo que eu tanto fitava:

— Se lembra, Alice?

— Claro… O pequeno guardião.

Ela deu um sorriso, deslizou os dedos longos e finos sob cada uma das peças ali expostas:

— É um conforto.

— Como assim?

— Gosto de olhar para eles e ver que cada um pertence ao seu lugar, porque todos estão aqui enfileirados, cada um tem uma origem, um momento, um sentimento e um lugar…

Ela pegou um pequeno cavalinho marrom, com patas manchadas de branco, que estava em uma posição sentada, entregou o pequeno bibelô em minhas mãos e disse:

— Este eu ganhei no meu primeiro recital. Lembro que foi algo pequeno, estava apenas a professora e alguns alunos… Neste dia ganhei flores e elogios, coisas que se perdem, mas com isto, é como se pudesse eternizar uma memória e guardar nesta pequena existência uma grande história.

— Cada coisa pertence ao seu lugar? —

¾ indaguei.

Ela caminhou até o meio da sala e virou-se de forma delicada, deixando o sol que entrava pela fresta da janela banhar o lado esquerdo de sua face. Wendy era capaz de reluzir naquele momento:

— Todos nós temos um lugar para voltar, sentimentos para guardar e pessoas que vamos amar… Podemos estar parados na vida como essas pequenas peças, apenas enfeitando uma outra existência e, mesmo assim, não perdemos a singularidade da nossa própria essência, porque guardamos em tudo que vivemos e cada momento que presenciamos as incontáveis memórias, aprendizados e dores. Então, minha cara amiga, acho que as pessoas com olhares atentos poderão vislumbrar as mais intensas histórias que contemos.

Ela segurou minha mão, apertando delicadamente o cavalinho. Senti seus dedos extremamente gelados, fiquei encarando aquela Wendy nova, um pouco diferente da minha Wendy do passado e ela continuou:

— Muitas vezes estamos trincados, com um risco invisível a olhares superficiais. Estamos atentamente esperando que alguém note além do que pensam que somos e olhe mais atentamente as cicatrizes que carregamos, porque podemos não desejar em voz alta, mas todo mundo quer e precisa de alguém que ame das qualidades até aos defeitos, dos acertos até aos erros… Pois que nossa vida é uma história escrita a caneta, com rasuras, uma letra meio torta e feia e, mesmo assim, ainda desejamos que alguém pare e leia.

Sabe, Wendy, você é aquele tipo de pessoa, a pessoa que para e olha com atenção para cada detalhe e que se preocupa em dar o espaço necessário, você é inclinada aos dizeres do amor e mais que palavras percebe que também é verbo e, por isso, precisa ser além de meras falas, precisa ser ação. Amor se prova e se sente e o amor que oferecemos ao outro é a medida da gente. Queria ser como você, porque aquelas palavras ditas ao acaso sobre coisas e lugares, sobre pertencer e sobre continuidades são necessárias para todas as pessoas destinadas a questionarem seus próprios caminhos, porque no fim, todo mundo está meio perdido, procurando uma casa ou um abrigo, queria ser como você, que consegue confortar um amigo com o exercício dos próprios verbos que tens dito.

Lancei-me para frente e abracei ela com toda a minha força, porque se as pessoas são mundos, eu estava ali, disposta a segurar o dela, estava ali para admirar todas as falhas e as artes de suas palavras.

Sabe, Wendy, posso ser meio perdida, no entanto quando me despedi de você naquela tarde havia ao menos percebido que nenhum caminho já trilhado é necessariamente um caminho perdido, na verdade este é o constante exercício da liberdade, é ser história dentro da própria vida, é sempre se conduzir buscando uma saída, mesmo que essa saída seja para se encontrar.

Sobre a Autora:Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso “cuenta me un cuento” de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: “o testemunho de Delphin”. Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: ” Por de trás da pálpebras”, no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.

Revisão: Tatiana Iegoroff

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hannalygaby@gmail.com

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