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Lucidez paranoica

Leia "Lucidez Paranoica", de JC Rodrigues

Estão loucos, todos eles sem exceção, acham que me enganam fingindo que estão medicados com seus placebos, porém digo que não, digo que em seus rostos sorridentes vejo a face inegável do mal onírico que se abate sobre a Terra.

Ando pela rua com meu rosto coberto, com medo da minha própria sombra enquanto me esquivo dos bárbaros cuja insanidade os torna agressivos como animais em busca de sua presa, é o mundo que virou um manicômio e eu sou o último lúcido nessa insanidade.

Quem é o mais louco? Quem vai me atacar? Quem vai transmitir a corrente do mal? Quem? Eu te pergunto, quem?

Será isso o apocalipse dos tolos, o reino dos medíocres ou, então, o cemitério onde os abutres pairam se alimentando da carnificina e enchendo os seus buchos enquanto grasnam o seu canto perverso: “votem em mim”.

Desalento e insanidade coletiva são aspectos cuja minha mente frágil não consegue mais combater, já gritei, já protestei, já atirei as minhas palavras aos quatro ventos ao passo que via a morte aos milhares virar coisa rotineira: um, dois, trezentos, oitocentos, mil, dez mil, cem mil, um quarto de milhão; tudo isso nada mais é que um número, pois se contam vidas com a mesma importância que se contam folhas caídas no outono.

Mundo louco, vida fatídica que de certo poderia se encontrar nas páginas de uma sátira megalomaníaca, ou nos delírios de um homem em que a mente foi triturada por eventos de cunho abominável.

A cada dia minha esperança se vai, perco a fé e o mundo adquire um estranho tom cinza, durante a passagem do tempo perco a conexão com minha própria sanidade, por muitas vezes me pego olhando pela janela invejando os pássaros e horrorizado com meus semelhantes que em sua loucura se tornam uma manada suicida.

Me pergunto com muita frequência se eu sou o errado, mesmo tendo certeza das minhas convicções, pois são amparadas pela lógica e pelo crivo científico cuja mera opinião, apesar de insistir em contrapor, não se sustenta diante do mais simples argumento.

Estou cansado, cansado de estar certo, cansado de estar preso à coerência em profundo desespero sem o alento de alguém que compartilhe do meu pesar, do meu temor, da minha dor, essa é face mais cruel desse mundo maluco, os lúcidos são os reclusos, os isolados em suas casas, com medo até de suas famílias, pois até em seu ceio a insanidade se faz presente e a voz da razão é motivo para excomungarão.

É, talvez o mundo não tenha jeito, talvez os tempos loucos perdurem e vivamos numa nova Idade Média, com inquisidores e suas tochas em punho e líderes que invocam o direito divino para governar. É, talvez eu seja o último lúcido recluso entre as paredes de minha casa que depois de esbravejar e indignar quase não tem forças para lutar. É, talvez eu seja o louco e não o lúcido, mas caso não o seja, caso não seja o último, espero que minhas palavras transvertidas de insensatez para os delirantes te ajude a descobrir que existe mais alguém como você, um são nessa terra de malucos.


Sobre o autor: Nascido na cidade de Feira de Santana, no interior baiano, Jonycley Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, “A voz do anjo”, pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, “Historias do cotidiano” pela Verlidelas, e “Filantropia do mal” organizada por Pris Magalhães.


Revisão: Maria Carolina Rodrigues

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Sobre o(a) Autor(a)

É um jovem de dezenove anos nascido em Feira de Santana – BA, sempre gostou de escrever, pois viu na escrita uma forma de dar vida ao impossível e fazer com que as pessoas se lembrem de que a realidade pode ser muito mais do que os olhos podem ver, em 2021 publicou o seu primeiro livro a “A voz do Anjo”.
jonycley10@gmail.com

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