Literatura Errante

Entre ou Cadastre
palavras que encantam, corações que se conectam
Capa do Livro / Correcional

CORRECIONAL | Schadenfreude

Cap. 11 – Schadenfreude

A minha recuperação não está sendo fácil. Mas, estou resistindo. Já deve fazer dois meses que estou nessa sala. E é, mesmo, uma sala, no porão da Casa. Já consigo pisar, mas, a perna direita ficou uns seis, sete centímetros menor que a direita. Meu braço esquerdo quase não sobe, e já fui alertada que fazer força com ele pode romper o remendo na clavícula. Nestes dias intermináveis, minha vaidade foi jogada no lixo. Só uso essas batas ridículas de hospital, com a bunda à mostra, e meu cabelo foi raspado, com o pretexto de cuidar do ferimento provocado pela coronhada que me apagou na clareira.

Mas, hoje é o dia em que serei liberada para subir. E, quem diria, isso me anima.

— Oi, Raísa. — é a não-médica, novamente — Você está quase pronta para subir. Falta só um último procedimento.

— Que procedimento? Que novidade é essa?

— Os funcionários des-demitidos ficaram chateados com sua denúncia, e fizeram uma devassa nas filmagens em que você aparecia. Encontraram uma trela bastante lasciva! — breve pausa, para saborear meu medo — Rosa, hem? Uma moça bonita! Se você fosse homem, eu diria que tem bom gosto.

— E o que vocês vão fazer? Não acham que já acabaram comigo?

— Segurem-na. — e dois homens bem fortes me levantam e colocam-me no leito — Podem amarrar.

Eles o fazem, mesmo eu me debatendo e gritando. Minha força não é páreo para a deles, e temo que o remendo da clavícula não possa resistir à pressão, quando me seguram com força.

— O que vão fazer comigo?

— Nada demais. Somente vamos reduzir seus impulsos homossexuais extraindo o órgão de prazer.

O leito tem uma articulação que acompanha as pernas amarradas, quando elas são abertas. Escancarada, ouço o som de travas, e não posso mais mover as pernas. Estou completamente vulnerável e à mostra. Sinto o ar gélido do ar-condicionado ressecar a pele sensível da minha intimidade.

Não paro de me debater. Grito que não, que são todos loucos!

Ela pega um alicate de unha, desses que manicures usam para cortar a cutícula.

— Não se preocupe, Raísa. Está esterilizada.

Com o polegar e o indicador, ela abre, e puxa um pouco pra cima. Sinto a pontinha do clitóris ficar à mostra.

— Se você continuar se sacudindo, em vez de um corte limpo, toda essa região do seu corpo vai ficar parecendo carne moída! Ajude-me a fazer disso o menos traumático possível.

Eu não consigo.

Estou simplesmente apavorada.

Tento ficar quieta por um instante, mas, sinto o metal gelado encostando na pele fina e sensível, e dou um pulo involuntário.

— Viu? Primeiro corte. Seu lábio esquerdo vai arder muito no banho… e toda vez que você mijar.

Já está ardendo! Contraio todos os meus músculos, tentando controlar outros possíveis espasmos. Sinto o metal gelado encostar novamente, mas tremo o mínimo possível.

E, quando menos espero, ouço o som do metal batendo contra o metal. A dor chega com atraso, quase dois segundos depois do som, mas, vem crescendo sem parar e irradiando por meu abdome, meus seios por todo o meu corpo, e minhas pernas tentam sozinhas fechar, num esforço vão de tentar me proteger. É quando eu vejo um ferro de solda, vermelho em brasa na mão dessa psicopata de bata! Ela parece querer me mostrar seus instrumentos, como qualquer torturador que se preze.

— É preciso cauterizar, agora, para estancar o sangramento.

Outra dor indescritível irradia por todo o meu corpo, e minhas pernas se contorcem a ponto de eu pensar que a junção ligeiramente torta do fêmur vai se partir. Mas, não. Com meus movimentos involuntários, algumas áreas da parte interna de minhas coxas são queimadas, também.

— Vocês não vão fazer isso com Rosa, também, vão? — essa ideia me apavora.

— Não, meu doce. Com ela não. Mortos não têm impulsos homossexuais.

Pensei ter ouvido errado. Para não incriminá-la evitei tocar em seu nome por todos esses dias, mas, agora que já sabiam de nós, eu precisava saber dela.

— Não entendi.

— Entendeu, meu bem. — cínica! — Ela morreu. Parece que, depois que a Brigada saiu à sua procura, ela enlouqueceu, e saiu atrás delas. Assustadas, sem saber o que vinha, atiraram no peito dela. Ela passou poucas horas aí, nesse leito, até morrer. Morreu esperando você acordar, para dizer a verdade.

Ela parece ter um prazer mórbido com a minha dor.

— Bem, o curativo está feito. Cuide dele. Já sabe como fazer, é muito semelhante ao do ombro e ao da perna, eu acho. Se vira. Está liberada pra subir. Vai lá.

Mancando e, agora, tentando manter a perna aberta por causa da nova dor, subo a escada sem pressa, e acreditando que o esforço terminará por fazer o novo ferimento sangrar. Ainda não acredito que Rosa morreu. Não! Irei encontrá-la lá fora, no jardim, eu sei disso! Sorrindo seu sorriso falso (e, ainda assim, lindo!) para o mundo, enquanto a dor come suas tripas, como sempre!

Em cima, encontro algumas recém-chegadas, me olhando com estranheza. Cada uma das antigas passa por mim, com a cara amarrada, e me dá uma cusparada! Estão todas no rush da hora de recolher. No quarto de Rosa, vejo entrar uma das novatas. Eles sabiam que eu a procuraria. Trocaram-na de lugar para me torturar. Eu sei disso! Entro no meu quarto. Vou deitar e dormir. Amanhã, volto a procurá-la.

———

Na manhã do dia seguinte, procurei Rosa no café da manhã. Mas, ela não apareceu. O ritual das cusparadas continuou, durante todo o dia, como segue até hoje. E, claro, as novatas nele se incorporaram. Não sei exatamente por qual dos meus erros estou sendo castigada com os cuspes. A cirurgia dolorida, com certeza, foi por fugir e por matar minhas colegas (e nos deixar sem Brigada de Defesa). O corte lá embaixo, declaradamente, é por ter um caso com uma colega. E os cuspes? Seria só desprezo, mesmo? Por ter tentado, a todo custo, sair daquele inferno? Daquele pesadelo? Rosa, afinal, estava certa? Será que eles sempre vencem, mesmo?

Hoje, já faz uma semana que estou de volta. Não trabalho mais no jardim. Sou a responsável por higienizar os banheiros e todo e qualquer lugar que esteja sujo e nojento na Casa. Isso talvez explique o porquê de as meninas parecerem cada vez errar mais o vaso, e encontrar lugares mais criativos para excretar.

Estou neste momento esfregando do chão da recepção as pegadas de estrume que alguém fez o favor de trazer da ordenha (por que não limparam os pés, e entraram pelos fundos, como sempre?), quando alguém me avisa de um novo entupimento de vaso que precisa de minha atenção. Mas, antes que eu possa me levantar para checar o problema, uma surpresa: eis que, lá de fora, ouve-se um grito, que é seguido de muitos outros.

Sigo claudicante até a janela mais próxima, e, seguindo o som dos gritos, não é difícil encontrar a causa do problema: mais uma invasão animal! Mas, dessa vez, é uma vara de javalis que causa todo o alvoroço! Pegaram as meninas de surpresa, e chegaram atropelando. Vejo uma ser arremessada uns dois metros à frente. Algumas conseguem correr pra dentro de casa, e outras estão sendo massacradas pelos grandes e violentos suínos. Sinto que já não me importa tanto que morram, ou que morram sofrendo. Assisto com um sorriso no rosto.

— Raísa, você é a única que pode nos salvar! — chega Lorena, desesperada.

— E o que eu posso fazer?

— Só você sabe manusear as armas. Elas estão desmontadas. — as meninas vão se amontoando à minha volta, esperando que eu decida salvá-las, e saboreio sua dependência em mim.

— E como pretendem pegar as armas? Não tenho mais chave, e as demais da brigada, como vocês já sabem, eu matei. — há um prazer inesperado em dizer na cara delas que matei suas amigas.

Um javali encontra a porta da entrada, fechada. As meninas da casa gritam desesperadas, e eu me rio por dentro, porque isso atiça mais o bicho, e seus amiguinhos, que começam a chocar-se mais insistentemente à porta. Outro tenta alcançar as meninas pela janela da sala.

— Por favor, Raísa. Esses bichos são muito maiores do que as queixadas, e não vai dar tempo de os soldados entrarem!

— Tudo bem — respondo — Abram o arsenal.

Gostou? Que tal compartilhar com alguém que também vai gostar?

Deixe um comentário

Sobre o(a) Autor(a)

Escritor (Contista e Romancista), Poeta, Roteirista e Ator, Pablo é Pernambucano da gema, nascido em Caruaru e residente em Recife. Apaixonado por arte, criou as iniciativas Instituto dos Artistas Errantes e os seus braços: o projeto Literatura Errante e a Produtora Errante de Conteúdo Audiovisual (PECADO), que permanece coordenando.
pablo.dramaturgia@gmail.com

Publicações Recentes

Siga-nos

Assista ao Literatura Errante

0
Your Cart is empty!

It looks like you haven't added any items to your cart yet.

Browse Products
Powered Voltage Emoji by Caddy

Entre ou cadastre-se para fruir plenamente do
LITERATURA ERRANTE.

É grátis!