Literatura Errante

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CORRECIONAL | Realidade

Cap. 09 – Realidade

Passo um tempo atordoada! Não estou enxergando nada! Não escuto nada! Caída sobre a mochila, salvei minhas costas de esbarrar em uma raiz mais alta. Acho que alguém notou o gerador da cerca desligado e religou. Eu deveria ter previsto isso, já que ele está parando de tempos em tempos. Quando a vista começa a retornar, vejo que alguém se aproxima. Algumas meninas, na verdade, parecem vir na minha direção. Droga! Preciso correr!

Ainda sem saber bem pra que lado estou indo, corro! Será que me viram? Será que me identificaram? Acredito que não. Pelo menos, eu estava no escuro e… Merda! Cadê a espingarda? Deve ter caído. Volto de fininho na direção contrária, e verifico se ainda há alguém perto da tela. Algumas olham para a tela observam a brecha que eu estava fechando, onde aconteceu a explosão com o retorno da energia. Uma senhora gorda olha pro lado e pede:

— Joana, busca algum machado ou cabo de vassoura. Algum pedaço de pau.

Joana vai. Olho para o chão, perto da cerca, e lá ainda está o alicate. Do lado de fora! Sobressaltada, olho para a saída do Hexágono, e vejo que algumas meninas estão fazendo a volta na cerca. Droga!

Ainda estou escondida nas sombras, mas, preciso ser mais ousada. Cuidadosamente, para não emitir ruído algum, vou tateando à minha volta, perto de onde havia caído.

Como diz o ditado: “um olho no padre, outro na missa, e outro olho no coroinha escondido dentro da batina do padre”. Tenho que encontrar uma arma preta no chão escuro e cheio de folhas secas, sem fazer qualquer som nem ser vista por pessoas a pouco mais de três metros de distância, enquanto outras vêm se aproximando.

Quanto mais eu procuro, mais me aproximo da área iluminada que avizinha a cerca. Alguém chega com um cabo de vassoura, e a senhora gorda empurra a cerca, desencaixando o que eu cuidadosamente havia encaixado. Por um breve descuido, o metal encosta novamente, e repete-se o estampido que me cegara e ensurdecera antes. Só que, agora, eram elas olhando para a cerca, e não eu. Estendo o meu braço para a área mais iluminada e sinto a coronha tática da espingarda. Puxo, mas, sua bandoleira parece estar presa a algo.

Por causa do barulho tão intenso, as meninas que estão fazendo a volta correm para chegar mais rápido e ver o que houve.

Num salto, pulo para junto da arma, solto uma das pontas da bandoleira e a puxo novamente. A espingarda vem, e corro. Ainda escuto o diálogo:

— O bicho foi pra ali!

— Não foi um bicho! — reconheci a voz da maldita gorda — Foi alguém! E esse alguém fez um buraco na tela!

— Chamem a brigada de defesa! Alguém tentou invadir a nossa Casa!

Deu Merda! Vão sentir minha falta!

Corro ainda mais rápido. Poucos minutos depois, chego à clareira do acampamento, onde treinamos tiro. A estrutura dos alvos ainda estava lá, como se houvesse munição para praticarmos. Mudo a direção para o oeste. Preciso achar a fronteira para sair do País.

Estou correndo há quinze minutos, depois do campo de treinamento, e já está faltando fôlego. Começo a andar mais lentamente, e… o que é aquilo ali? Vejo luzes à minha frente.

Agora me aproximo lentamente das luzes. Há outra clareira hexagonal. Dentro, tendas militares. Perto da entrada, dois soldados. Na cerca, alguns soldados fazem a ronda. No centro do hexágono, tratores cavam o chão. Posso ver uma placa com uma logo meio feia e incompreensível, seguida da palavra “Mineração”. Soldados fazendo a segurança de mineração aparentemente ilegal. Esse é o nosso novo país!

Preciso desviar a rota. Vou contornar, por longe, essa clareira, e seguir rumo para o oeste.

Contornado o campo de mineração, já tenho recobrado o fôlego. Corro um pouco mais, mas, não demoro. Não posso acreditar: outra clareira hexagonal! Essa é pequena. De longe a menor de todas, com poucas dezenas de metros quadrados. Há alguns veículos dentro dela, e dá pra ver que uma moto está com a chave na ignição. Vou arriscar.

Entro na clareira, após olhar bastante em volta. Só que isso me deixa em evidência, e ouço uma voz feminina gritar atrás de mim:

— Raísa, largue a arma e volte pr’A Casa!

Olho pra trás, e vejo Dalia. Ela é a melhor rastreadora da Brigada. Como pode ser tão desatenta na vida, e rastrear tão bem? Ao lado dela, surge Laura. Então, uma a uma da brigada chega, algumas mais ofegantes, indicando que vieram correndo atrás de mim. Resolvo ignorar, e sigo em direção à moto.

— Raísa, você está avisada. — ouço ela puxando a telha da sua espingarda — Largue a arma no chão e volte conosco.

Olho para trás, e as meninas também engatilham suas armas. Viro-me de frente para elas, com as mãos erguidas.

— Vou soltar a espingarda! — digo.

Pego minha espingarda com as duas mãos, ambas longe do gatilho, em sinal de rendição, e me abaixo ficando sobre o joelho direito.

— Desculpa. Vou soltar a bandoleira.

Finjo que vou remover a bandoleira, e aproximo minha mão direita do gatilho. Meu coração dispara. Não acredito que vou fazer isso! Mas, elas apontaram suas armas para mim. Será que atirariam? Não posso pagar pra ver. Tenho catorze tiros para nove mulheres. Vantagem pra mim. Mas, elas podem dar nove tiros simultâneos, e os meus são espaçados. Vantagem para elas. Todas nós treinamos para atirar em alvos móveis, mas, nenhuma de nós treinou para atirar se movendo. Eu, tampouco.

Rapidamente, deslizo a arma, posicionando e BAM!

A reação delas me surpreende. Olham para Dália quando o tiro lhe atinge. Não estão preparadas para um combate. Não atirariam, certamente, mas, agora é tarde. Agora, com certeza, irão atirar! Mas, ainda estão em choque. É minha chance! Puxo a telha e limpo a câmara. Atiro rapidamente. Repito o processo quatro vezes, e, antes que elas olhem para mim, já derrubei cinco das nove.

Não há tempo para sofrimento. Elas apontam as suas armas para mim. É agora! Vou morrer!

Sem pensar, dou mais quatro tiros, mas, ouço sete! As meninas caem.

Sinto um soco violento empurrar o ombro esquerdo para trás, perco o equilíbrio e caio. Fui ferida! Minha perna direita dói. Dói muito! É insuportável! Mas, não há tempo para dor. Preciso levantar! Tento, e simplesmente caio. Quem me derrubou não foi o tiro no ombro, mas, o tiro que partiu meu fêmur!

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Sobre o(a) Autor(a)

Escritor (Contista e Romancista), Poeta, Roteirista e Ator, Pablo é Pernambucano da gema, nascido em Caruaru e residente em Recife. Apaixonado por arte, criou as iniciativas Instituto dos Artistas Errantes e os seus braços: o projeto Literatura Errante e a Produtora Errante de Conteúdo Audiovisual (PECADO), que permanece coordenando.
pablo.dramaturgia@gmail.com

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