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CORRECIONAL | Planos

Cap. 07 – Planos

Estou há algumas semanas treinando. Os primeiros dois dias foram maçantes, com exercícios inacabáveis de montagem, desmontagem, limpeza e manutenção das armas e, claro, cuidados e procedimentos para evitar acidentes como o de Samara. Mas, ouvimos as queixadas ao longe, no terceiro dia, e estivemos a um passo do pânico geral. Isso parece ter acelerado o sentimento de urgência, pois desde então tenho gasto horrores em munição, com alvos parados, móveis, múltiplos, grandes, pequenos, de perto e de longe. Não só eu, claro! Surpreende-me que confiem tanto na gente. Se nos unirmos, podemos facilmente abater os trinta soldados.

Penso na ironia absurda dessa proposição, e sorrio com desprezo. O trabalho coordenado e unido como eles querem que façamos poderia ser a maior arma contra seu sistema! Mas, é inexequível. Essas meninas já foram convertidas. Elas são fanáticas, ou no mínimo convencem em parecê-lo! Não sei se posso confiar em qualquer uma delas. Muito provável que não! Já como um reflexo, ao ver meus alvos levantarem voo, dou mais uma série rápida de cinco tiros, e abato cinco pássaros no ar. Passei no último teste com louvor!

Abaixo a arma, recebo os abraços das meninas e comemoro brevemente. Todo animal derrubado deve ser incorporado às nossas refeições, em vez de apodrecer malcheirosamente ou, pior, atrair predadores. Então, enquanto elas vão pegar as aves abatidas, aproveito sua distração e me afasto. Creio que tenho alguma virose, ou não estou me dando bem com toda a química que nos estão empurrando, com gases, medicamentos, vitaminas e sabe lá o que mais nos enfiam sem que saibamos! Ou pode ser porque não consegui mais me livrar do nojo que tenho de meu corpo desde o estupro. A repulsa é tanta, que mesmo após horas esfregando sabão ou esponja, nada faz passar a sensação de podre, a sensação de que eles ainda estão dentro de mim, renovada a cada manhã! O que sei de fato é que tenho tido pequenos enjoos, diariamente. Dessa vez, o enjoo é mais intenso, e preciso me esconder para vomitar. Não posso deixar que me vejam com qualquer fragilidade, com qualquer fraqueza. Estou “integrada”, e não posso correr esse risco.

Já passamos de um mês desde que eu entrei para o grupo. Hoje, me reconhecem como vocacionada para essa tarefa. O treinamento está dado por encerrado. A Brigada está pronta. Trancam todas as armas e uma carga de munição suficiente para repelir um ataque de centenas de animais. Como a Brigada de Defesa é pequena, e não tem atividades permanentes, cada uma de nós recebeu uma chave do cofre onde está guardado o arsenal (duas são necessárias para abrir o cofre), e voltamos às nossas atividades regulares.

— Que bom que você voltou pra nós! — me recepciona Rosa na pequena estufa, construída na minha ausência — O jardim até parece mais florido!

Deus do céu, como eu vou sentir sua falta, Rosa! Eu tinha que me apaixonar, aqui dentro?! Que inferno! Será que você fugiria comigo?

Os militares que estavam nos acompanhando, para meu alívio, estão partindo hoje. Já recolheram seus pertences. Um deles parecia ter esperança de dormir com uma das meninas, mas, pelo ar frustrado, não deve ter conseguido. Tenho impressão de que teria sido bom. Afinal, ela estaria “curada”. Para sair daqui, eu encararia uma farsa? Certamente. Ou não. Quantas vezes teria que me submeter a ter relações? Seria menos estupro se eu consentisse contra a minha vontade?

— Ei! Minha melhor aluna não vai me dar um abraço? — o Tenente Bezerra arranca-me de meus pensamentos, ruidosamente — Só não deixa as meninas saberem que penso assim… Podem ficar com ciúmes! — Sussurra.

O Tenente Bezerra é boa praça. Simpático, divertido. Talvez, em outro contexto, fôssemos bons amigos. Mas, não. Ele é uma engrenagem do sistema como qualquer outra, e não é confiável! Estou só, não posso confiar em ninguém! Mantenho meu disfarce e lhe dou um abraço educado. Até sorrio, digo que sentirei falta deles, e espero visitas. Sei que jamais virão, não é assim que funciona. Todos sabemos! Mas, isso ajuda na farsa. Na minha e na deles. Repito o ritual, com pequenas variações. “Vão logo embora!” não paro de pensar, “Não consigo mais disfarçar o enjoo por muito tempo!”. Na primeira oportunidade, corro para o banheiro e despejo boca afora toda a refeição que acabara de comer. Isso está ficando muito frequente, não conseguirei manter em segredo por muito tempo.

Saio da cabine, e encontro Janaína e Ubiracy, encarando a porta.

— Está tudo bem com você?

— Claro. Algo que comi não entrou bem. — respondo, tentando fazer parecer casual — Pus pra fora, logo passa.

Antes de dormir, Rosa entra no meu quarto para conversar. Já somos quase amigas, e quase não há mais cerimônias entre nós.

— Raísa.

— Oi. Entra. Algum problema?

— Oi. Senta um pouco. Não vou te enrolar. Deixa eu ir direto ao ponto, e quero que você seja honesta comigo.

— Tudo bem. — que bomba vai explodir, agora? — Pode falar.

— Você sabe o que é bulimia?

— Como? — fui pega de surpresa com essa.

— Bulimia. É um…

— Eu sei o que é bulimia. — tento não ser seca, sem muito sucesso — De onde vem isso?

— As meninas estão preocupadas. Você tem provocado o vômito após as refeições. Temos notado isso. — “agora fodeu!”, penso — Veja, não há vergonha em procurar ajuda. Esse é um problema sério, e ninguém precisa enfrentá-lo sozinha.

Preciso pensar rápido. Negar pode fazer parecer que não me inseri no sistema, que não aceito a ajuda, e isso põe tudo a perder. Confirmar, por outro lado, expõe outra fragilidade — que nem tenho — e me obrigar a sustentar mais uma mentira. Resolvi arriscar tudo.

— Ainda temos tempo para dar uma volta lá fora?

Isso é incomum, e Rosa hesita. Não se sai muito, à noite. Mas, Rosa certamente entende que preciso de privacidade para tratar de um assunto delicado.

— Tudo bem. Vamos. — termina concordando — Mas, precisamos ser rápidas. Logo soará o toque de recolher.

E saímos.

Rosa quer que entremos no jardim, mas eu me recuso. Acredito que todos os espaços de convivência estão grampeados.

— Vamos caminhar um pouco.

Quando nos afastamos o suficiente, começo a falar baixo.

— Rosa, preciso de sua sinceridade absoluta, agora.

— Não estou entendendo.

— Posso confiar em você?

— Claro que pode! Você sempr…

— Não, Rosa. Me escuta. — ela fica apreensiva — Posso, mesmo, confiar em você?

A ênfase na palavra “mesmo” e o meu olhar desconfiado para a sede desarmam Rosa. Seu olhar assume um ar de desespero. Nunca antes a vi tão fora da personagem, como agora.

— Raísa, o que você está aprontando?

Estou tensa. E se ela não receber bem minha revelação? E se ela não quiser apoiar meu plano? É praticamente certo que ela me entregue. O que estou fazendo?

— Eu preciso te dizer uma coisa. — meu coração bate tão rápido que sinto o sangue me chacoalhar a cada pulsação! — Preciso poder confiar em você. Talvez… Não. Talvez, não. Minha vida depende disso.

— Fala logo, Raísa. — ela treme — Está me deixando aflita!

— Eu… Eu… — não consigo revelar o plano. A voz simplesmente não sai. Respiro fundo e expulso com todas as forças a primeira coisa que me vem em mente — Eu te amo!

Tenho um momento de pânico. Isso não podia ser dito! Arruinei o plano! Ela congela. Para de andar. Eu não acredito que fiz essa burrada!

E também não acredito no que estou vendo! Uma lágrima escorre em seu rosto. Ela se senta lentamente na grama, e me puxa pelas pontas dos meus dedos gelados. Sinto que sua mão sua. Sento-me com ela e sussurro, quase ao seu ouvido.

— Sei que não posso. Sei que não devo. Isso pode ser minha perdição… a nossa! Mas, te quero tanto quanto somos proibidas de nos querer.

— Não diga mais nada. Por favor!

— Eu preciso dizer!

— Não! — ela vira o rosto.

— Me escuta. — olho pra a casa — Disfarça. Alguém nos observa da janela. — não posso identificar o vulto escuro destacado no ambiente iluminado do salão, mas, sei que nos observa — Precisamos andar.

— Não consigo. — ela recompõe sua postura — Não consigo andar, agora.

— Escuta. Eu não queria dizer isso. Não era essa a conversa que eu ia ter com você, e o tempo pede pressa. Mas, eu não podia mais guardar isso para mim. Eu te amo! No começo, você era só uma garota bonita. Tá bom, muito bonita! Até sua gentileza, seu cuidado e carinho me inspirava desconfiança, e me assustava. Achava que você fazia para cumprir a obrigação! Mas, não sei. Algo mudou. Não sei em que momento, mas o tesão virou paixão, e o receio virou carinho.

— Raísa, Raísa… — há algo de muito triste em sua voz — Eu soube desde que te vi pela primeira vez! Soube ao te ver descer completamente perdida daquela Van que você seria minha perdição! Achei que seria rebelde. Depois, com suas crises de pânico, senti que eu tinha um problema, uma bomba relógio em minhas mãos. — abro a boca para falar — Espera, escuta. Eu seguia o protocolo. À risca! Você era um problema com que eu tinha que lidar, e não vou mentir, não havia prazer algum em fazer isso. Mas… — suspiro profundo e um silêncio insuportável — Espera, eu vou falar. Algo em você me tocou, Raísa. E me tocou o coração. Passei a sonhar uma vida com você, quando acordada, e, até, tive sonhos constrangedores de tão quentes quando dormia. Quantas vezes, acordei apavorada, temendo ter me traído durante o sono, sussurrando seu nome entre sorrisos o orgasmos! E como eu senti sua falta quando você foi para a Brigada! Eu realmente senti! Queria você de volta! Queria seu sorriso, seu cheiro, sua voz… E quero sua companhia, seu corpo…

Eu já não consigo mais suportar! Parece que vou explodir! Por que não podemos nos amar? É errado o amor? Não! Errado é proibi-lo! Como eu quero tomá-la em meus braços e apertar com força, até que nos tornemos uma só!

— Mas, Raísa. Nada disso é possível. Esse sentimento é proibido. Até nossa conversa aqui só está sendo tolerada porque acham que estou falando de sua bulimia.

— Não há bulimia, Rosa. — o assunto me devolve alguma sanidade, junto com mais uma enxurrada de adrenalina — Preciso te contar algo mais. Na verdade, preciso de sua ajuda.

— O que você está aprontando?

— Sua primeira impressão era a mais acertada. E, enfim, parece que também sou uma bomba-relógio. Rosa, eu vou fugir daqui. Foge comigo!

Ai! Lá vou eu fazendo burrada outra vez! De onde veio isso? Não estava no roteiro! Ela demonstra uma surpresa imediata, esboça uma careta de nojo e então o medo toma sua face.

— Preciso de sua ajuda, e quero você comigo. Podemos fugir do país! Um dos soldados deixou escapar numa conversa casual que não estamos tão longe da fronteira, assim. — seu medo tão evidente começa a dar lugar a uma tristeza intensa — Por favor, não me abandona. Se me ama, vamos fugir juntas!

— Raísa, eles sempre vencem. Você não conseguirá fugir. Você não vai longe. Vou te perder pra sempre.

— Não vai. N… — palavras! Para onde foram? Por que me abandonaram? Gaguejo, perdida — Olha, não sei quanta lavagem cerebral fizeram em você, mas, entendo o seu medo. Já me aconteceu tanta coisa horrível aqui. Até estuprada, eu já fui! — contemplo horror em sua face — Sim, homens entram na casa durante a noite. E o gás que soltam para nos fazer dormir nem sempre funciona. Mas, nos paralisa e eles pensam que estamos dormindo de olhos abertos.

— Você está mentindo!

— NÃO ESTOU! — percebo que me exaltei um pouco, e abaixo a intensidade da voz — Não estou. Eu não sou a única! Não sei quem mais já sofreu isso, mas, pelo que eles dizem, não foram poucas.

— Eles?

— Foram dois caras. Sabe aquele dia em que amanheci com o rosto roxo, depois de mat… — droga! Me traí — depois da morte de Samara? Eu nunca caí da cama! Eles me bateram, mesmo imóvel, mesmo paralisada!

— Peraí. Você ainda se culpa pela morte de Samara?

— Não. Quer dizer, ela pediu que a deixasse partir! Como eu poderia recusar um pedido desesperado?

— Recusando! — agora Rosa está exaltada — Raísa, aqui cuidamos umas das outras!

— Não! Aqui somos obrigadas a estender o sofrimento umas das outras, fingindo que ele não existe!

— Raísa! — sua indignação é genuína.

— Rosa! Agora, você me escuta…

O toque de recolher soa dentro de casa, e desviamos nossos olhares. Bate-nos um forte desespero, tal qual temos sido programadas para sentir, e levantamos sobressaltadas. Ainda assim, seguro a mão de Rosa.

— Rosa, te explico tudo com mais calma depois. Mas, vem comigo!

— Nem te conheço! — ela puxa a mão, me obrigando a soltá-la — Eu amo uma Raísa que não existe! Uma Raísa que não mataria, que sofre por não ter conseguido salvar uma vida!

— Eu chorei e sofro todo dia porque não pude dar uma alternativa para ela! Mas, posso dar para nós duas!

Rosa titubeia.

— Não vou te atrapalhar, nem entregar. Ok? Talvez, lhe ajude, vou pensar no caso. Mas, não vou parar de pedir, até o último segundo, se preciso: desista! Seu plano irá fracassar, por melhor que seja. Eles sempre, sempre vencem! Vamos entrar. Amanhã, nos encontraremos novamente para aconselhamento sobre a bulimia, e você me conta seu plano. Entramos correndo na Casa, mas, é tarde. Quando entramos no corredor, ela na minha frente porque o quarto fica mais adiante, a vejo cair, do nada. A última coisa que vejo são seus olhos… abertos!

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Sobre o(a) Autor(a)

Escritor (Contista e Romancista), Poeta, Roteirista e Ator, Pablo é Pernambucano da gema, nascido em Caruaru e residente em Recife. Apaixonado por arte, criou as iniciativas Instituto dos Artistas Errantes e os seus braços: o projeto Literatura Errante e a Produtora Errante de Conteúdo Audiovisual (PECADO), que permanece coordenando.
pablo.dramaturgia@gmail.com

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