Literatura Errante

Entre ou Cadastre
palavras que encantam, corações que se conectam
Capa do Livro / Correcional

CORRECIONAL | Fuga

Cap. 08 – Fuga

Já faz uma semana que conversei com Rosa. Na manhã seguinte, acordei no meu quarto, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse sido apagada no corredor. Tive que ir tomar o café da manhã como se nada tivesse acontecido, e sentar distante de Rosa, como sempre fazemos. Uma angústia não me deixava o coração: ela caiu de olhos abertos! O café quase não entrou: a visão do que poderia ter lhe acontecido fez a ânsia de vômito me dominar por toda a manhã.

Ainda na estufa, decidi que não ia aguardar até a noite, pelo aconselhamento sobre a “bulimia”. Convenci a encarregada do jardim a expandir o jardim. Pedi ajuda de Rosa para levar o adubo para uma área mais distante. Havíamos recebido uma carga grande da compostagem, porque não demos conta de comer ou armazenar todas as queixadas mortas naquele ataque, e o lixo orgânico mais que triplicou naquele intervalo. Como a encarregada queria mesmo dar fim naquele excesso de adubo, recebeu bem a ideia da expansão do jardim. Então, eu e Rosa carregamos a saca para mais distante, e fiz a pergunta que não conseguia calar dentro de mim.

— Sim. Foi horrível! Eles começaram ali, mesmo, no corredor. — é assustador como ela consegue manter o rosto artificialmente sorridente, enquanto sua voz embargada entrega a salada de sentimentos negativos — E me jogaram de bruços na cama e terminaram lá…

Lágrimas corriam seu rosto, e eu não conseguia conter minha revolta. Com a enxada, revolvi a terra com tanta força que chamava a atenção. Rosa pedia que eu disfarçasse, mas, se eu não descarregasse a raiva com força, eu explodiria. Um enjoo insuportável tomou minhas entranhas e pus para fora tudo o que era possível expulsar, em cima da terra revolvida. Um grito de revolta estava preso no peito.

Naquela noite, sentamo-nos lá fora, novamente, para conversar sobre minha bulimia.

— Temos que arranjar algo que entretenha a todas, de preferência à noite, para dificultar as buscas. Vou preparar tudo para duas pessoas, pois até lá pretendo ter te convencido a vir comig…

— Eu vou. — Rosa falou, resoluta. E tive certeza de que estava sonhando!

Então, era pra valer!

Bem, Rosa não atira, e preciso ter uma arma por nós duas. Para pegar a arma, precisávamos de mais uma chave, e instruí Rosa a pegar a chave de Dalia, pois seu quarto é vizinho, e elas são bastante próximas. Não demorou muito para surgir uma oportunidade, e, em pouco tempo, ela me comunicou que já a havia pego. Perfeito! Agora já temos como abrir o cofre.

Dalia não parece ter sentido falta. Esse, aliás, era outro motivo de termos escolhido roubar a sua chave: ela é de longe a mais desatenta da Brigada, e, mesmo que notasse, até que assumisse que perdeu a chave e reportasse, já teríamos tido tempo de fugir.

No dia seguinte, iniciamos uma campanha. Em datas comemorativas, a Casa tem uma noite de cinema. Começamos a nos mobilizar para que possamos ter isso mais regularmente, e deu certo. Chegou uma carta para todas nós, comunicando que, a cada intervalo de 15 dias, aconteceria uma noite de cinema. Era uma oportunidade de fazerem mais propaganda do regime, já que vídeos instrucionais sempre iniciavam as sessões de filmes. Em poucos dias, iniciaríamos este programa! Passamos os últimos dias nos organizando.

— Raísa, o que estamos fazendo? — ela perguntava quando conversávamos sobre a bulimia, no fim do dia — Eles sempre vencem! Isso não tem como dar certo!

— Rosa, meu amor, você não poderia estar mais enganada. Vai dar certo, e seremos, finalmente, felizes! Juntas!

Sua hesitação vem me incomodando, porque parece que a segurança que ela tinha quando decidiu se esvaiu com o tempo, e só sobrou uma pessoa vacilante. Se ela vacilar na hora da fuga, isso pode ser o fim para nós duas!

Como Rosa tem livre acesso à despensa, a encarreguei dos suprimentos. O plano era sair pela frente, mas tenho uma ideia mais segura, que só revelarei na hora de sair. Consegui as ferramentas de que preciso, e deixei tudo encaminhado. Uma mochila meio surrada, que estava abandonada no celeiro desde que cheguei na Casa, serviria para carregar tudo de que precisávamos. Tomara que aguente o peso.

Estamos na noite da fuga. Sabe aquele grito preso no peito? Agora, uma semana depois, ele continua aqui, entalado como uma grande espinha de peixe atravessada, rasgando minha garganta. Eu e Rosa montamos uma noite de cinema memorável para o grupo. Agora, antes do início do filme, estamos todas sentadas, pois temos que ver as propagandas do governo: vídeos instrucionais sobre a ideologia do Partido e notícias sobre como tudo está progredindo, como tudo é lindo e maravilhoso no novo sistema. Inferno! Mas, sei que está acabando, e, durante o filme, seremos liberadas para ir ao banheiro.

Olha aí! O apresentador acaba de dizer um triunfante, ainda que formal, “Boa noite!”, e já começam a subir os créditos. Finalmente, vai começar o filme! Meu coração acelera. Olho pra Rosa, que está olhando para mim, tentando disfarçar a aflição com um sorriso, e volta a olhar para a tela. Todas aplaudimos o programa, pois é o esperado, e, quando começam a aparecer os créditos do filme, algumas vão ao banheiro.

Quando estão quase todas de volta, e entretidas com o filme, Rosa levanta para o banheiro. Mais uma retorna e senta. Estão todas aqui, exceto Rosa. Levanto discretamente, e a encontro no banheiro.

— Tá quase tudo pronto. É agora!

— Eu não vou.

Ela parece resoluta. Eu, surpresa.

— Como é?

— Não vou. — ela treme — Não consigo.

— Não, Rosa, você não tá fazendo isso comigo. Não é possível…

— Eu quis ir. Tive medo de ficar, mas, o medo de sair é maior! O que podem fazer conosco? Vamos, ainda está em tempo de desistir dessa estupidez! Fica aqui comigo!

— “Comigo”? Aqui, nunca estaremos juntas. Prefiro morrer com você a viver sem!

— Aqui, você viverá, e nos veremos todos os dias. Por favor!

— Como você pode achar que isso aqui é viver? Não! Olha. Se não tenho você aqui ou lá fora, vou não ter você em liberdade! Vamos, preciso da sua ajuda no arsenal. Dá tempo de você mudar de ideia.

Tivemos que deixar a arma para a hora final. É o último risco que temos que correr, antes da fuga propriamente dita. Ocorre que não encontramos nenhum bom esconderijo em toda a instituição, para a arma e a munição, pois qualquer pessoa designada pela limpeza podia revirar nossos quartos, qualquer das jardineiras podia revirar qualquer ponto do jardim, qualquer pessoa poderia encontrar em qualquer lugar. Sem falar que ainda não estou segura de que não estamos sendo filmadas.

Dentro da sala escura, cujas luzes não acendemos para não chamar atenção indesejada, Rosa introduz a chave numa entrada. Eu introduzo na outra. Giramos juntas, e o cofre se abre, semelhante a uma grande caixa de maquiagem, ou um livro de pop up, exibindo camadas onde estão disponíveis as armas de caça de longo alcance. Dentre as armas, tiro uma espingarda de 12mm, que é a mais potente de que dispomos. Espero não precisar usar, mas, se for preciso, ela fará um grande estrago. As armas da Brigada eram de uso militar, tendo sido ligeiramente modificadas, para adequar à necessidade na caça (e, claro, para nos limitar). A maior vantagem disso é que, pensando nas varas de 200 a 300 queixadas, muito comuns aqui, deixaram algumas com grande capacidade. A que escolhi dá até 14 tiros sem precisar de recarga, o que me dá uma autonomia extraordinária. Na mochila com os suprimentos que Rosa roubou da cozinha e algumas poucas peças de roupa, coloquei também algumas caixas de munição. Olho para Rosa, a adrenalina a mil. Ela olha triste para mim. Fecho o arsenal, viro-me de frente para ela, ponho uma mão sobre o osso esterno e a conduzo para o canto da sala, atrás da porta. Encurralada, ela me olha nos olhos e entende o que eu quero.

Beijamos-nos ardentemente, e o clima esquenta. Mas, não há tempo para fazer nada, e o risco para nós duas, se pegas fazendo qualquer coisa, é alto demais.

— Ainda dá tempo de você vir. Vem?

— Ainda dá tempo de você desistir…

— Parte comigo!

— Já disso que nã…

— Tchau, Rosa. Eu te amo!

A última coisa que vejo antes de sair da sala foi Rosa descendo, recostada à parede, e chorando. Por que ela não vem? Enquanto saio de fininho da casa, pelos fundos para não ser vista, lágrimas lavam  meu rosto.

Contrariando o combinado de fazer a volta e sair pela entrada da frente, eu desativei o gerador da cerca elétrica, e, com um alicate que roubei da sala de máquinas, abri uma passagem na tela. Tive o cuidado de fazer a mais de um metro do chão, para nenhum animal mais forte como uma queixada poder forçar a entrada, e agora, ao sair, vou deixar a tela de uma maneira que, se não for visto bem de perto, não será percebida a abertura que eu fiz. Encaixo os arames um a um, usando seu próprio peso a favor do objetivo.

De repente, ouço um estouro e sou arremessada para trás!

Gostou? Que tal compartilhar com alguém que também vai gostar?

Deixe um comentário

Sobre o(a) Autor(a)

Escritor (Contista e Romancista), Poeta, Roteirista e Ator, Pablo é Pernambucano da gema, nascido em Caruaru e residente em Recife. Apaixonado por arte, criou as iniciativas Instituto dos Artistas Errantes e os seus braços: o projeto Literatura Errante e a Produtora Errante de Conteúdo Audiovisual (PECADO), que permanece coordenando.
pablo.dramaturgia@gmail.com

Publicações Recentes

Siga-nos

Assista ao Literatura Errante

0
Your Cart is empty!

It looks like you haven't added any items to your cart yet.

Browse Products
Powered Voltage Emoji by Caddy

Entre ou cadastre-se para fruir plenamente do
LITERATURA ERRANTE.

É grátis!