Literatura Errante

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Capa do Livro / Correcional

CORRECIONAL | Captura

Cap. 10 – Captura

Estou perdida! Mas, não vejo tanto sangue quanto quando foi a Samara. Eu vou viver. Puxo uma peça de roupa na minha bolsa, e amarro na ferida, tentando estancar o sangue. Não adianta. E, claro, não coloca meu fêmur no lugar.

Aaaaaiiii! Quanta dor!

Eu não acredito que nadei tanto para morrer na praia. Vou me arrastar até um dos carros. Espera. Deixa eu fazer uma coisa.

Desmonto o cano da espingarda, e pego a calça de moletom de dentro da bolsa. Tento improvisar uma tala com uma parte da espingarda de cada lado. Não consigo. E a escolha se demonstra estúpida, quando ouço ruídos vindos da mata, e tento me deitar no chão na vã esperança de não ser percebida.

— Mãos na cabeça!

Não! Eu não posso acreditar! São os soldados da mineração. Certamente, ouviram o tiroteio e vieram checar. Ele vem se aproximando de mim com uma arma apontada para meu rosto, e, quando menos espero…

Abro os olhos. Eu sou só dor. Estou sendo arrastada pelos cabelos! O corpo batendo nos obstáculos. Terra entrando na ferida da perna partida, que mais parece uma peça mole de borracha, exceto pela dor — látex não dói. Jogam-me na traseira de uma camionete. Sinto muito frio, e ligeiramente dormente. Devo estar perdendo bastante sangue! Não quero mais viver. Entrego-me.

Agora, estou novamente naquela sala ou seja lá o que for onde havia adquirido as escaras. Estou amarrada, novamente, ao leito. Já vi esse filme. Refletores queimando minha pele novamente. Eletrodos. Um bipe insuportavelmente regular…

— Ei! Alguém!!! — grito — Apareçam, seus covardes! Eu já estou morta! Venham terminar o serviço, ou terei que mostrar o como uma morta se vinga de quem a matou! Vou ser uma assombração na vida de vocês! Vocês não fazem ideia!

Percebo alguém passando com uma bata atrás dos refletores à minha direita. As luzes não me deixam ver nada. Mas, diferente da outra vez, eu não estou dopada. Não sinto minha perna direita, nem meu ombro e braço esquerdo, mas, consigo me mover um pouco. E, pelo menos, consigo erguer a cabeça o suficiente para olhar em volta.

— Seus covardes! Venham! Aproveitem e me estuprem novamente! Vilipêndio a cadáver, é esse o nome! Cadê os necrófilos? Sapatão é falta de rola? Continuo sapatão, seus imbecis! CONTINUO SA-PA-TÃO!!! SEUS PAUS PEQUENOS!!!

Algo em mim não está normal. Não consigo conter meus impulsos. Claro que estou revoltada! Mas, é mais do que isso. É como se eu tivesse bebido. O que vem à mente, eu digo, faça sentido ou não. Outra bata passa por trás dos refletores.

— Cadê? Não vão aparecer? Está aqui uma mulher que é mais macho do que vocês!

Duas pessoas se aproximam, uma de cada lado, vestidas de batas, máscara, touca e uns óculos com uma espécie de lupa pendurada. Não dá nem para identificar se são homens ou mulheres.

— Ah! Finalmente vieram dar o ar da graça! E agora? Qual é a próxima tortura?

— Você poderia ser mais específica no que diz sobre estupros?

Era uma voz feminina. Falou com uma suavidade que, em outros momentos, me tranquilizaria, me demonstraria que vinha com boas intenções. Mas, eu sei que é só protocolo. Como Rosa.

— O que houve? — ela insiste com a mesma suavidade — Estava tão falante, até agora. Explique o que quer dizer com estupros.

— Dois caras entram à noite, não é? Deixam aqueles envelopes estúpidos, com instruções sobre o que vosmecês sinhô e sinhá querem da gente? Andaram passando o rodo entre as mulheres da tão idolatrada Casa. Saem estuprando as mulheres, e chamando um ao outro de necrófilo, e respondendo que nossas carnes ainda estão quentes.

— Como você poderia saber disso? Minutos após o toque de recolher, todas dormem. Nós nos asseguramos disso.

— Então, se estamos dormindo, pode? — ironizo — Não é pior, não?

— Não pode. Por isso perguntamos sobre os supostos estupros. Mas, como eu disse, não faz sentido algum. Você deve ter sonhado.

— Se você quer saber, são pesadelos, mesmo. Mas, meus pesadelos são todos quando estou acordada nesse inferno que vocês chamam de Casa Correcional! Você quer dizer que garantem alguma coisa com o gás? — não posso ver a expressão de surpresa, mas, me pareceu que ela deu um pequeno sobressalto — Sim, eu sei do seu gás milagroso! Pois deixa eu contar uma coisa pra vocês: às vezes, a gente dorme. Mas, sabe-se lá por que, às vezes, só paralisamos, e ficamos acordadas. E se ficamos acordadas de olhos abertos, a frase deles é “olho aberto quer rola”. Você queria ser estuprada? Agora me diga o que acha de ser estuprada enquanto está completamente paralisada E amanheci no outro dia com a cara cheia de hematomas Acordei com a cara roxa porque eles não estavam satisfeitos em bater aquelas máscaras ridículas na minha cara e O IDIOTA ME BATEU E ESTRANGULOU E DISSE QUE ERA A MELHOR ROLA DA MINHA VIDA!!!! — o meu ar acabou, parei, respirei, e desatei a chorar — ATÉ HOJE EU TENHO NOJO DE MIM MESMA!!!! ISSO NÃO É VIIIDAAAAAA!!!

— Interessante…

Eu não acredito no que ouvi. “Interessante”?!?! Minha vida vem superando os limites do inacreditável, a cada dia!

— “Interessante”?! “Interessante”?! Quer saber o que é interessante nessa estória toda? É uma mulher ouvir o relato de um ABUSO SEXUAL COVARDE! E falar, com essa calma, que é INTERESSANTE! INTERESSANTE É UMA BALA NA SUA CARA, SUA COVAR…

Colocam uma máscara na minha cara, e eu tento resistir, tirar o rosto, mas, afinal, tudo parece desmanchar à minha volta.

Uma dor lancinante invade o ombro esquerdo, e irradia para o braço, peito, pescoço… Aaaiiii! Abro os olhos e olho pro lado. Os cintos que me amarram à mesa estão mais apertados. Muito mais. Minha perna direita também lateja insistentemente. Olho pro lado esquerdo, e a médica está com uma pinça dentro do meu ombro, explorando o interior do buraco feito com o tiro.

Não consigo raciocinar direito. Sei que eu xingo até a décima geração dessa médica, tanto ascendentes como descendentes, por estar fazendo isso a cru. Peço que reapliquem a anestesia.

— A ordem é realizar as cirurgias sem anestesia, e com você acordada. — ela responde — Não posso descumprir a ordem. Ah! Encontrei!

Ela remove a pinça com um pequeno projétil de chumbo amassado.

— Vamos precisar reconstituir a clavícula e o… — Olha pro nada, como se alguém falasse com ela — Sim. Mas… Tá bem. Sim, senhor! — ela olha pro lado — Cola orgânica. Não vai funcionar, mas, ordens são ordens. — e se dirige a mim — Não queria estar no seu lugar, garota. Você vai perder um pouco da mobilidade do seu braço esquerdo, mas, não posso fazer nada. São consequências das suas escolhas. Muita gente quer sua cabeça, sabia? Mas, surpreendentemente, eles ainda acham que podem te salvar. Não sem consequências, pelo visto. É melhor aceitar se dobrar, porque você já está quebrando.

Eu não consigo dizer nada. Não consigo ver, mas a dor é insuportável. Ela abre um pouco mais o buraco da bala, pega umas coisinhas estranhas da mesa de instrumentos e segura o que, pelo que eu sinto, parecem ser as partes de minha clavícula, mexe um pouco e tira o que parece ser uma espécie de molde do que está faltando. Então, coloca a cola orgânica nas duas extremidades e simplesmente cola nos pedaços de osso da clavícula. Simples, assim. Então, pede a linha e a agulha, e começa a costurar cada camada, dos músculos à pele, do buraco da bala ao fim do corte quase no pescoço.

— Você é resistente à dor, garota. Eu não esperaria isso de ninguém. Mas, vai ser muito útil, porque você vai viver com essa dor pro resto de sua vida. Vamos à perna, então? A perna não vai aguentar seu peso desse jeito. Precisamos usar uma solução mais radical.

Ela faz a volta, e eu levanto minha cabeça, para acompanhar. Ela puxa alguns refletores, e eu sinto o calor queimar minhas carnes expostas.

— Bisturi. O balote atravessou a perna e fez um estrago na saída, mas, temos que procurar outros projéteis. Pelos outros furos na perna, há muitos balins, e ela teve sorte que nenhum alcançou a artéria Femoral. Em compensação, aqui perto da base do fêmur, o estrago foi muito grande. Dá pra ver. Se o tiro tivesse sido desferido dez metros mais próximo, não tinha perna pra montar de volta.

— Para de conversar, e conserta logo esta porcaria! — reclamo, sentindo a dor enquanto ela me examina.

Ela parece fazer de propósito. Está abrindo um corte grande na pele da face dianteira da perna, e estou me contendo. Agora, está cortando mais internamente! Pra que abrir tudo isso? Nos furos dá pra ver pra onde foram os balins!

— Você é uma médica de merda! AaAAaahhh!!!

— E quem disse que eu sou médica?

Essa carniceira só pode ter sido mandada pra me torturar. Com a pinça, manuseada com uma tesoura, ela expande furos pequenos no meio da carne, por onde passou o projétil, até achar o balim. Então, sem o menor cuidado, enfia a extremidade do instrumento e pinça a bolinha de chumbo de dentro.

O mesmo procedimento.

Todas.

As.

Cinco.

Vezes!

E, então pega uma esmerilhadeira que poderia ter saído de uma obra qualquer e liga. Seu barulho, considerando que ela pretende usar em mim, é apavorante!

— Precisamos nivelar as partes do fêmur para poder encaixá-las. Senão, como ele vai colar e regenerar?

O zumbido do instrumento já me apavora. Meu coração entra em disritmia e me falta o ar, mas, eu procuro me sustentar olhando. Meu pescoço já dói de tanto tempo com a cabeça levantada, mas, eu seguro.

Mas, quando ela levanta a parte inferior da minha perna, levando para fora do corte o osso quebrado pela bala, eu grito de dor! Eu urro, e não faço ideia de que esta ainda não está entre as maiores dores da cirurgia. O equipamento girando encosta no osso e eu vejo estrelas. A dor é tanta que eu não suporto, e apago.

Sinto um cheiro horrível queimando meu nariz. Acordo espirrando. Uma, duas, três… Olho em volta e lembro onde estou.

— Tenho ordens de fazer isso com você acordada.

Ela liga a esmerilhadeira, e eu já sinto a dor por antecipação. Ela segue, e o cheiro de queimado, do meu osso queimando, é enojante. Aguento por um, dois, três, quatro, cinco… e no sexto segundo a dor desliga meu cérebro outra vez.

Quando acordo, a perna está fechada Olhando para a coxa, vejo que há uma linha costurando grosseiramente de perto do ilíaco até quase no joelho, e um corte transversal bastante inclinado que sobe da parte interna da coxa, atravessando para a parte externa. Está tudo muito inchado, e latejando. O soro do meu lado é soro, mesmo, mas, tem uns nomes de remédios anotados.

— Tem alguém aí? — estou menos… espontânea, agora.

— Estou aqui. Você não aguentou uma dorzinha. — ela com certeza notou meu ódio, pois me deixou ouvir uma risadinha baixa —, Mas, olha. Tenho boas notícias para você. Os dois idiotas foram demitidos, pelo que fizeram com você. A má notícia é que eles têm as costas quentes. Fizeram uma ligação e nem mesmo precisaram deixar seus postos. A demissão foi substituída por uma advertência formal.

O meu sangue está fervendo. Pra que ela me deu esperanças?

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Sobre o(a) Autor(a)

Escritor (Contista e Romancista), Poeta, Roteirista e Ator, Pablo é Pernambucano da gema, nascido em Caruaru e residente em Recife. Apaixonado por arte, criou as iniciativas Instituto dos Artistas Errantes e os seus braços: o projeto Literatura Errante e a Produtora Errante de Conteúdo Audiovisual (PECADO), que permanece coordenando.
pablo.dramaturgia@gmail.com

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