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A Aldeia dos Magos Escondidos | Livro 2 | Cap. XXIV

A Aldeia dos Magos Escondidos (Guto Domingues) - Cap. XXIV

XXIV

Pergaminhos – A poesia do caos

Após a reunião com os monges era necessário dizer algo para os outros. Os veteranos seriam os multiplicadores das informações discutidas na reunião no scriptorium. Assim não seriam propagadas histórias sem ligação com a verdade.

No jantar todos se reuniram no salão principal. Benevides era aguardado por todos. Fragmentos de conversas ouvidas aqui e ali já demonstravam que nada escapa dos ouvidos curiosos que habitavam o monastério.

– Antes de servirem o jantar, quero que ouçam!

Silêncio aterrador se fez.

– Não precisam criar soluções fantásticas para o que aconteceu hoje. Vocês são testemunhas de algo que não ocorre há séculos. Tudo será esclarecido. Cada participante da reunião que promovi na biblioteca irá lhes colocar a par de todas as ações que estabelecemos. Nosso hóspede, Silas, ficará mais tempo conosco e irá nos ajudar para os tempos que se aproximam. Conforme disse em nosso último jantar: somos a casa dos justos.

A fala de Benevides não desfez a preocupação que flutuava no ambiente.

– Amanhã. Espero que estejamos mais descansados e iremos começar uma nova fase. Comam, descansem e mantenham as orações.

Benevides sentou-se. Silas mais uma vez estava ao seu lado. Todos olhavam quietos e muitos olhos pulavam do rosto de Silas para a espada que estava em suas costas. Pensamentos sobre o motivo dele não se afastar dela desde a sua chegada já eram comuns entre os que estavam no salão. Silas detectou alguns, mas aos poucos preferiu blindar sua mente. No monastério não teria, pelo menos ainda, que espionar ninguém.

Depois do fim do jantar, Silas imaginou que seria alvejado por incontáveis perguntas, mas ao perceber que os monges que participaram da reunião estavam cada um em uma roda de conversa notou a intenção de Benevides. Cada monge era responsável por um grupo de tarefas e como líderes desses grupos, eles assumiam a transmissão das novidades. Esse jeito de organizar o monastério era novo para Silas. No período em que morou e estudou ali, as coisas eram diferentes.

– Interessante esse jeito de administrar que você escolheu. – disse, querendo elogiar o amigo abade. – Você não centraliza as informações, as tarefas, delega funções. Dá valor aos antigos. Antes não era assim… Lembro-me de monastérios que pareciam como pequenos reinos, guiados pela mão de ferro de abades vaidosos.

– Isso que lhe afastou da gente? – perguntou curioso, Benevides.

– Um dos motivos. Administrar não é ordenar ao bel prazer. Sempre imaginei que os verdadeiros líderes deveriam ouvir seus comandados. Em qualquer hierarquia, organização, não interessa do que chamem. Todo grupo precisa de um líder. Não de déspotas ambiciosos.

– A pena da falta de liderança é o caos. Por isso devemos ter líderes.

– Que nos guiem. Que tomem conta e não usem o poder para atender suas vaidades.

– Engraçado que ao ouvir-lhe, meus pensamentos gritam em minha mente: “Silas está falando de Bento II”.

– Caso ele fosse um líder de bom coração. Jamais pensaria dessa forma. Mas ele não é o primeiro. Ele vem de uma leva enorme de líderes com desejos apenas pelo poder. Isso que causou essa apostasia nos fiéis. Bom, há outros motivos, mas os pastores têm muita culpa.

– Penso que o Mal está infiltrado há décadas em nossas cúpulas religiosas.

– Sim. A própria Trégua já foi pensada para tirar nossas forças. Levou dois mil anos, mas a intenção primordial – enfraquecer a Fé – está se realizando.

Uma nova rotina se estabeleceu no monastério.

Silas passou a ficar praticamente o dia todo com os despertos. Estudavam os pergaminhos indicados pelo ferreiro, treinavam preces para canalizar os poderes divinos e à noite se recolhiam no mesmo aposento. Silas pediu para que ficassem sempre juntos. Tinha medo de acontecer algum rasgo no plano espiritual. Como Tomás se mostrou poderoso para fazer exorcismos, era melhor que ele estivesse sempre perto dos outros despertos.

Benevides retomou as pesquisas e finalmente, depois de alguns dias, conseguiu que Silas dispusesse de alguns momentos para discutirem sobre os preciosos pergaminhos que desde o primeiro despertar ele tentava e tentava, mas não conseguia fazer Silas ler.

– Não sei se há uma força atrapalhando ou se o seu pouco interesse em profecias e predestinação não lhe dá a vontade necessária para ler esses textos.

Silas balançou a cabeça e sorriu, disse em sua defesa:

– Essa sua estratégia é interessante. Você me provoca, joga a isca, mas não é assim que funciona comigo. Não vou entrar nesse jogo. Vou ler, meu amigo, vou ler.

– Sei que os acontecimentos não permitiram. Mas não posso deixar de provocar. – Benevides justificava sua insistência.

– Vamos lá! Dê-me esses pergaminhos e diga o que tanto quer que eu leia.

– Vamos aos meus aposentos. Eles estão lá desde o dia da forja do pomo…

– Esse é o momento onde o bardo faz uma pausa dramática, atiça uma brasa na fogueira e revela que o baú foi roubado…

– Quem dera… Nesses contos misteriosos os bardos sempre revelam que o culpado é alguém de carne e osso. Aqui nós lutamos contra espíritos.

– Infelizmente.

Caminham até os aposentos, ao entrarem Silas comenta que a arrumação não é comum em contos de fogueira e senta-se à escrivaninha esperando Benevides abrir o baú onde estavam os pergaminhos.

– A principio separei os textos que relatavam autores videntes. Mas nessas noites que estudei entre o despertar dos nove – era assim que se referiam ao ocorrido – e hoje, notei que os separei apenas para relacionar e embasar o manuscrito principal. A vidente que o escreveu morreu há pelo menos sessenta anos. Acredito que foi escrito antes de eu nascer. Mas leia e tire as suas conclusões. Os outros, eu deixei aqui para você conferir caso queira.

Silas leu atentamente e antes de chegar ao fim do primeiro parágrafo, disse:

– Mas isso é um texto de deleite. Prosa em verso. Esperava que fosse algo do tipo – o ferreiro levantou um braço com a mão em forma de concha e falou com voz empostada – Abrir-se-ão os mares e terras em chamas e as almas do homem justo será testada ao romper da primeira luz do sol. – Benevides o interrompeu:

– Não. Isso é coisa de bardo dramático e afetado pela representação teatral. Não é assim que funciona.

– Então me conte, meu amigo. – Silas voltou ao tom normal de sua voz. – Talvez eu não tenha notado algum detalhe.

– Em todo esse tempo que estudei. Li grandes autores iniciados nas artes divinas e pesquisadores de manifestações de Alvos, Caídos, Anjos, Demônios, Orcs, Elfos –chame do que quiser –, esmiuçaram textos antigos e criaram uma disciplina chamada mitologia comparada. Estudaram cosmogonia de povos isolados, mergulharam fundo nos escritos antigos. O objetivo era estabelecer um paralelo nas histórias sagradas da antiguidade até a Guerra e entender se havia algum tipo de revelação. Recolheram todos os textos que puderam e buscaram semelhanças. Mas o erro era estudar textos ditos sagrados. Não era assim que as profecias apareciam.

– Mas os profetas ouviam a voz de Deus. Assim eram redigidos os textos divinos.

– Bom isso é bem questionável. Sendo que poucos são e eram letrados, mas a questão não é essa. A questão é que a revelação ocorria de muitas formas. Dentro e fora dos muros dos templos. E isso em todos os povos e religiões.

Silas ouvia e ao mesmo tempo passava os olhos no pergaminho. Algumas ações narradas lhe chamaram a atenção.

– Antes de continuar a leitura, me ouça. – Benevides notara que Silas achara alguma coisa importante no texto, mas precisava terminar o raciocínio.

– Desculpe. Continue.

– Então, como dizia a Revelação é para quem está disposto a recebê-la. Alguns povos tem outra palavra para revelação. Sabe qual?

– Nem imagino.

– Inspiração.

– Mas não tem nada a ver. – Silas disse de súbito, sem controlar o impulso.

– Espere. Há um povo antigo no leste que não escreve ou conta histórias para deleite, como nós. Para eles todas as histórias de ficção – eu acho que eles nem tem o conceito de ficção – são reveladas ou inspiradas por deuses. Eles usam a mesma palavra para as duas coisas.

– Engraçado que em nossa língua, inspiração tem a ver com o ato de sugar o ar.

– E também é a força criadora de origem transcendente e sobrenatural que traz conselhos e ideias aos artistas. Então concorda que uma palavra tem vários significados.

– Sim. Concordo. Mas aonde você quer chegar.

– Esses autores iniciados notaram que havia uma coincidência entre fatos históricos e textos de deleite, poemas musicados por trovadores e até esses contos de bardos.

Silas olhou esperando que Benevides concluísse, mas já havia entendido a tese do amigo.

– Diante do seu silêncio acho que já procurou em minha mente as informações que precisa.

– Não. Não dessa vez. Mas pelo que você falou. Os autores acreditam que artistas possuem uma capacidade de ouvir o etéreo? Se for isso. Acho que entendi.

– Assim fica claro que não importa o estilo do texto e nem a procedência. Apenas o conteúdo. Entretanto, há um problema.

– Mas isso você nem precisava dizer.

– Como são muitos textos e poemas e peças de representação dramática, nós não temos como filtrar profecias. Como criar uma maneira? Eles só notaram que eram profecias ao verificar que os textos proféticos eram escritos em um tempo anterior ao que acontecia. Tirando o número de ocorrências que podemos atribuir ao acaso, o que sobra é uma verdadeira obra profética.

– Você então acredita que temos em mãos uma narrativa inspirada pelo etéreo e que está para acontecer. Sorte ou predestinação?

– Se que as palavras que você gostaria de usar são: loucura e fé cega. Leia o texto e me diga. As primeiras estrofes não vão impressionar ninguém. Mas continue, por favor.

Silas levantou uma sobrancelha. Inspirou fundo e retomou a leitura.

Terminou a primeira estrofe do poema narrativo.

A segunda não surtiu efeito.

Ao ler a terceira, Silas perdeu a cor da face. Arregalou os olhos. Seus lábios executaram movimentos débeis. Ao fim de uma batalha contra o assombro que lhe perturbou os sentidos e lhe arrancou o equilíbrio mental, disse:

– Deus tenha piedade dos justos.

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