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A Aldeia dos Magos Escondidos | Livro 2 | Cap. XXII – Breve calmaria

Cap XXII - Breve Calmaria - Aldeia dos Magos Escondidos (Guto Domingues)

XXII

Breve calmaria

Silas olhou para os monges. Encontrou olhos assustados e, ao mesmo tempo, admirados. Ficou constrangido, quis justificar suas ações, mas as reações dos monges teriam que esperar. Em silêncio, acomodou André novamente na maca em que estava deitado.

Tomás repetiu:

– Vá para Starek. – as palavras eram proferidas automaticamente tais como as de quem acabara de acordar de um sonho vívido.

A fala do noviço reativou a atenção de Silas que perguntou:

– Contatou o demônio que o dominou?

– Não acredito que ele tenha sido dominado, Silas – disse Benevides com grande seriedade. Voltando-se para Tomás, pediu a confirmação de sua opinião:

– Não é, garoto? Senti sua luta.

– Não sei de que maneira eu lutei, mas não foi aqui no mundo material. A batalha foi espiritual. Dentro da minha mente. Como se disputasse um lugar. – Tomás falava olhando para o chão como se a resposta para o que vivera estivesse perdida naquele cômodo.

Silas não se conteve e disse:

– Você tem dons. Traduzir a língua do etéreo é apenas o início de suas habilidades. O que acabou de viver foi uma amostra mais sólida do que lhe espera no futuro. – ao ouvir as palavras de Silas, Tomás recobrou a atenção, fixou o olhar no ferreiro e disse:

– O senhor é um imortal! O caído me disse… Mas… – o olhar perdeu-se novamente para após instantes fixar nos olhos de Silas e continuar:

– Não. Ele não disse. Eu vi o senhor em Starek.

– Silas! – chamou Benevides. – Deixe ele se recompor. Temos que definir se o que ele está dizendo foi uma visão ou uma fala do demônio para nos enganar.

Tomás fechou os olhos. Respirou profunda e pausadamente, por alguns segundos e com o semblante mais lívido, falou:

– Senhor abade. “Vá para Starek” foi o que André pronunciou… – disse olhando para o amigo desfalecido deitado na maca, alheio a tudo que acontecera. – Ele ficará bem?

– Sim. Só está esgotado fisicamente. Mas ficará bem. Continue. – falou com carinho, Benevides.

– Não sei como, mas assim que André pronunciou as palavras eu entendi como se a língua que ele falou fosse a minha. Mas nem sei de qual povo ela é. Mas ele repetia: Vá para Starek. Depois de algumas repetições senti um frio, como se uma nevasca tomasse conta de meu corpo e mergulhei em uma escuridão. Já não ouvia mais a voz de André e não via mais o ambiente onde estava. De repente, me senti sufocado, havia um peso sobre mim e abri os braços para me livrar. A escuridão dissipou. Mas não estava mais no hospital. Um caído apareceu diante de mim. Estávamos envoltos em névoa, como a que nos protege aqui no monastério. E o caído me perguntou: Quem é o imortal? Por que ele está aqui? Tentei responder, mas minha voz não saia. Levantei os braços e cilindros de névoa os prendiam. Tentei gritar, em vão. Quando o desalmado correu em minha direção, mostrando as presas e levantando as garras, de meu peito saiu uma luz que o atingiu e o fez desaparecer. Todo ficou escuro e vi as Ruínas de Starek. Havia um homem caminhando em direção às laterais do templo antigo. Mas ele estava de costas. Com uma espada curta em uma das mãos e outra pendurada às costas. Quando o chamei ele se virou… Antes que pudesse ver seu rosto, tudo sumiu.

Ao fim do relato, Silas estava de olhos fechados, mentalmente fazendo as preces de proteção para certificar-se de que não haveria mais rasgos no tecido da realidade. Benevides avaliava o conteúdo dito pelo noviço e disse para os monges que testemunharam tudo:

– Anselmo! Pedro! Vocês tem uma missão. Não pensem que isso foi um evento isolado. Vamos entrar em um tempo sombrio. Teremos que preparar todo o pessoal do monastério. Pedro! Vá até a enfermaria e veja se está tudo bem. Você deve ficar lá. Anselmo! Peça para Inácio e Sebastião prepararem uma reunião com todos os monges veteranos no scriptorium da biblioteca na décima oitava virada da ampulheta. Quando eles estiverem lá, venha me avisar.

Assim que os monges saem, Benevides pergunta para Silas:

– Visão ou profecia? Sem provocações.

– O garoto não teve visão do futuro se quer saber. E não foi profecia. Ele esteve em Starek. Ele projetou sua mente. Mas alguém percebeu e quebrou a projeção. Mas quem? Só conheço uma pessoa que usa duas espadas curtas e que possui poder suficiente para notar e quebrar uma projeção mental.

– Faldang? Você acha?

– Não sei. Fiquei todo esse tempo reparando a fenda na realidade. Preciso entrar na mente do garoto. Já vi muitos magos implantarem memórias, confundirem pessoas. Há muito que analisar. Preciso examinar os dois. O outro garoto teve uma visão profética ou o demônio o induziu. Ainda é cedo para falar qualquer coisa. Vamos cuidar deles e depois vejo qual é a melhor decisão.

– Está bem. Concordo com você. Um incêndio de cada vez. – Benevides colocou a mão sobre o ombro de Tomás e disse:

– Deite-se e descanse. Vou ficar aqui com nosso hóspede e vigiar o sono de vocês.

Silas andou até a porta do cômodo e olhando para os garotos fez sinal para que Benevides se aproximasse. Assim que o abade chegou perto o suficiente para ouvir, Silas sussurrou:

– Terei que me relevar aos outros monges. Essa reunião que solicitou será útil para que eu diga a todos a minha missão. O que ocorreu não foi um fato isolado. Acontecerão mais e mais incursões dos servos de Orco. Temos que fortalecer a todos tanto fisicamente quanto espiritualmente.

– E o que pretende?

– Prepará-los para a guerra. Mas antes tenho que rever minhas intenções…

– Silas. Eu não tenho as suas habilidades. Muitas vezes nem compreendo seus dons. Tudo para mim sempre foi uma questão de fé. Possessões, manifestações, línguas ancestrais e tudo que vimos há pouco, para muitos é ficção. Você viu as faces amedrontadas de Pedro e Anselmo. E essa reação não é incomum. Precisamos nos precaver ao máximo. Um dos pergaminhos que separei fala que em Starek há o Selo da Trégua. Segundo consta, a trégua foi combinada e um selo feito para que marcassem a data e o acordo, mas isso se perdeu.

Silas não acreditava que isso existisse em Starek. Acolheu a fala de Benevides sem discordar. Queria ver onde o raciocínio do antigo mestre os levaria.

– Será que há algum caído aprisionado lá? – Benevides pergunta. Ou isso é parte das fantasias dos bardos?

As ruínas do templo antigo eram premissas de muitas histórias. E, em mil anos, a verdade se misturou à ficção. Não teriam como saber se essa coisa de Selo da Trégua era verdade ou coisa de bardo como Benevides insinuara.

Silas ouvia o amigo em silêncio, pensativo.

– Demônios não falam a língua dos Alvos. – disse o ferreiro, de súbito.

– Que lhe passa pela cabeça? Que André é um canal da graça? Mas… – o abade estava com a mente fervilhando.

– Não foi um demônio que disse a frase traduzida por Tomás. Aconteceu tanta coisa que não associei o ocorrido ao que é certo.

– O que é certo é que a língua ancestral não é proferida por impuros. Também não me atentei a isso.

– Nem poderíamos. O importante era cuidar dos garotos.

– Diga-me, Silas. Que pretende? Tira essa angústia de meu peito!

– Vou até as ruínas. Se Faldang for o homem visto pelo garoto tenho que me apressar.

– Mas a projeção como você falou. Quem quer que seja, notou a presença e desfez a projeção.

– Faldang, caso seja ele mesmo, não arriscaria ser descoberto. Sendo sincero, não tenho certeza se foi uma projeção mental ou visão. Isso que me esquenta a cabeça. Se for uma projeção, o garoto é poderosíssimo ou algo o guiou até lá. Não creio em visões, presciência. Não desse modo. Há algo a ser descoberto. Isso que ocorreu aqui não é natural.

– O caído disse que estão de prontidão.

– Sim. Alguém enviou Antônio. O aço arcano. Os despertares. Há muito que considerar. Isso não foi natural.

Pedro aparece no corredor em direção ao cômodo que estavam. Silas calou-se quando notou que o monge se aproximava.

– Perdão, abade. Mas já aguardam o senhor no scriptorium, não se aguentam de ansiedade. Na enfermaria está tudo calmo. Anselmo ficou lá para garantir que tudo permaneça como está. Os setes despertos estão contidos.

– Não notei que a décima oitava estava tão próxima. – disse Benevides ao notar que o tempo voava – Irei para lá com Silas. Aqui também os garotos estão contidos. Fique aqui de olho neles. Como testemunhou tudo, a reunião não lhe será de nenhum valor.

– Sim, senhor. Conte comigo.

– Vamos, Silas. O arauto das péssimas notícias será você.

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